Medicalização do viver entre usuários de psicotrópicos na Atenção Básica

Élen Lúcio Pereira, Lumena Cristina de Assunção Cortez, Flávio Fernandes Fontes, Mercês de Fátima dos Santos Silva

Resumo


Resumo

Este estudo visou compreender as concepções e vivências dos sujeitos que fazem uso diário de psicotrópicos e os impactos e sofrimentos imbricados na utilização inadequada da medicação. Para tanto, foram realizadas entrevistas semiestruturadas, nos moldes da história de vida, com usuários da equipe da Estratégia de Saúde da Família numa área remota do Nordeste brasileiro. Da análise temática das narrativas coletadas evidenciaram-se três categorias: Já sabia qual era o meu problema. E passou fluoxetina”: das queixas à medicação; “Ela passa a receita, e eu vou embora”: os (des)caminhos e (des)cuidados nas consultas de saúde mental; “Falta arroz, feijão, rapadura, linguiça, salsicha, mas não falta meu remédio”: a medicação e o medo da cessação do uso. As narrativas assinalaram a proliferação do diagnóstico “psiquiátrico” para comportamento e sofrimento do cotidiano, evidenciando o processo de farmacologização para condutas consideradas indesejáveis na contemporaneidade.

Palavras-chave: Medicalização da vida. Saúde Mental. Psicotrópicos. Atenção Básica.


Palavras-chave


Medicalização da vida; Saúde Mental; Psicotrópicos; Atenção Básica

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DOI: https://doi.org/10.22456/2238-152X.102687

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