O RISO DE PEQUENA FLOR
SOBRE O LIMITE DO EXAME CLÍNICO NA FORMAÇÃO MÉDICA
DOI:
https://doi.org/10.54909/sp.v10i1.155958Palavras-chave:
Educação Médica, Medicina Narrativa, Relações Médico-Paciente, LiteraturaResumo
Introdução: Este ensaio toma o conto “A menor mulher do mundo”, de Clarice Lispector, como parábola da relação clínica, para problematizar os limites do exame clínico na formação médica. Objetivo: Argumentar que o limite do exame clínico não reside na medição malfeita, mas na medição bem-feita, e propor uma consequência formativa para esse reconhecimento. Desenvolvimento: O explorador Marcel Pretre mede, nomeia e classifica Pequena Flor com rigor; o riso dela, porém, escapa à ficha. A violência do conto não está na negligência, mas no êxito do procedimento: na conversão de uma interioridade em variável. A partir de Buber, Jaspers, Charon e Canguilhem, sustenta-se que o clínico maduro se distingue do meramente competente não pela qualidade da classificação, mas pelo reconhecimento de que algo sempre escapa à descrição, e pelo recuo diante da pretensão de apreender o outro inteiro, recuo de dimensão epistemológica, ética e política. Conclusão: A formação médica ensina a preencher a ficha; ensina muito menos a habitar a fronteira da própria grade. O reconhecimento do irredutível não é uma técnica mais fina de apreensão, mas renúncia à captura, condição de um encontro que faça justiça à singularidade de cada pessoa.
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