Vol. 15 No 38 (2025): ENTRE O SENTIDO E O SISTEMA: Resistências Humanas na Era da Racionalidade Líquida
Vivemos um tempo em que a razão perdeu o rosto. A técnica se tornou um idioma universal, mas a linguagem do humano, com suas hesitações, fraquezas e esperanças, parece cada vez mais inaudível.
Esta edição da Revista Bauman propõe, portanto, um gesto de resistência: reunir vozes que, cada uma à sua maneira, interrogam o sentido da vida em meio à saturação da racionalidade moderna.
A revista abre-se com “A Velhice Antiutilitária”, de Matheus de Souza Rodrigues, que relê Byung-Chul Han e Ailton Krenak como pensadores de uma desobediência silenciosa. O envelhecer, visto aqui não como declínio, mas como fruição, é uma ruptura simbólica com a tirania da produtividade. O artigo desmonta o mito neoliberal do “corpo performático” e restitui à velhice a dignidade de quem já compreendeu que viver é mais do que render.
Na sequência, André Luiz Abrantes Oliveira, em “A (Des)Construção das Identidades”, reconstrói os debates clássicos e modernos sobre a formação do sujeito. Du Bois, Hall e Bauman se entrecruzam na tentativa de compreender identidades em fluxo, forjadas entre espelhos e fronteiras. O autor desloca a teoria social para o campo da diferença, mostrando como o “eu” contemporâneo é uma travessia, ora líquida, ora fragmentada, entre pertencimento e exclusão.
O terceiro texto, “A Hermenêutica Filosófica de Gadamer e sua Contribuição para o Constitucionalismo Democrático”, de Patricia Miranda Pereira, conduz o leitor à esfera da linguagem e da justiça. O direito deixa de ser um código fechado e reaparece como diálogo, onde tradição e interpretação se fundem num horizonte comum. A Constituição, aqui, é vista como promessa viva, um texto que se escreve continuamente no encontro entre passado, presente e porvir.
Da esfera filosófica à ecológica, Maria Eduarda Moraes Andrade e Rodrigo Koch, em “Espaço Educador Sustentável”, oferecem um testemunho prático de como a sustentabilidade pode deixar de ser conceito e tornar-se espaço vivido. A escola pública surge como território de transformação ambiental e ética, onde o aprender é também cuidar de si, do outro e do planeta. Trata-se de uma pedagogia do pertencimento, que faz da educação uma experiência de comunidade e futuro.
Encerrando a edição, Afonso Cláudio Alves, Felipe Freitas de Araújo Alves e Renan Antônio da Silva abordam “As Vantagens dos Sistemas ERP para a Tomada de Decisões nas Organizações”. O artigo, embora técnico, dialoga com os demais por uma via inusitada: ao explorar as potencialidades dos sistemas integrados de informação, evidencia tanto a promessa quanto o risco da racionalidade instrumental, a ilusão de que o cálculo poderia substituir a sabedoria.
Assim, os cinco textos reunidos nesta edição não se dispersam; formam uma constelação. Cada um toca um aspecto da tensão fundamental entre sentido e sistema, entre vida e performance, entre tradição e máquina. São tentativas de pensar o humano quando tudo parece desumanizar-se.
Como Bauman (2001) nos lembrava, “a liquidez da modernidade dissolve não apenas as formas sociais, mas também as certezas éticas”. Esta revista é, então, um convite à lentidão: uma pausa no fluxo vertiginoso da utilidade para reencontrar o tempo da escuta, da interpretação e da resistência.
Entre o algoritmo e a poesia, entre o cálculo e o cuidado, ainda resta, e sempre restará, um campo de sentido. É nesse interstício, frágil e fecundo, que a Revista Bauman aposta sua permanência.


