v. 16 n. 40 (2026): CORPOS SOB REGIME: imagem, controle e subjetivação na modernidade tardia

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A edição que se anuncia não descreve um campo: ela o tensiona até o ponto em que suas categorias deixam de funcionar como abrigo e passam a operar como problema. (Acessem). O corpo, tomado aqui como eixo transversal, não aparece como unidade, mas como superfície de conflito onde regimes distintos de inteligibilidade disputam inscrição.

Não há síntese.

Se algo unifica os textos, é justamente a impossibilidade de estabilizar aquilo que pretendem nomear. Começa-se com um gesto que poderia ser lido como reparação, mas que se revela mais radical: A tentativa de reinscrever o corpo após sua devastação clínica não restaura identidade, desorganiza-a. A tatuagem, longe de devolver um “antes”, instala uma escrita que não coincide com a perda que pretende cobrir. O que emerge não é cura, mas deslocamento: o corpo deixa de ser evidência e passa a exigir leitura. Aqui, o discurso médico, orientado pela restituição funcional, entra em curto com uma prática que não corrige, mas reinscreve o dano como condição de existência. O resultado não é reconciliação, mas um corpo que não pode mais ser pensado sem o traço que o excede.

Essa instabilidade encontra seu negativo na proliferação contemporânea da imagem. Se, no primeiro movimento, o corpo escapa à forma que o organizava, agora ele é capturado por uma forma que não admite resto. A exigência de aparecer converte a existência em superfície contínua, sem falha, sem opacidade. A promessa de visibilidade total não amplia o campo do possível, o reduz. O sujeito que se projeta como imagem não se expande: se fixa. E, no entanto, é precisamente nesse excesso de exposição que se abre uma fissura: a saturação da imagem reintroduz aquilo que ela tenta eliminar. O fracasso da perfeição torna-se condição de reinvenção. Mas essa fissura não se distribui igualmente. Na adolescência hiperconectada, ela tende a se converter em retraimento. O outro, mediado por dispositivos, já não devolve alteridade, mas cálculo. O reconhecimento, reduzido à métrica, não sustenta inscrição, apenas exige repetição. O laço não desaparece; torna-se rarefeito, insuficiente, incapaz de sustentar a travessia que esse tempo exige.

Aqui, a promessa tecnológica de conexão produz o seu inverso: uma subjetividade que oscila entre exposição compulsiva e isolamento silencioso. Esse cenário não é contingente. Ele é efeito de um longo processo em que a variação foi traduzida em informação e, depois, em controle. A formalização, celebrada como ganho de precisão, revela seu preço: tudo aquilo que escapa à codificação torna-se ruído a ser eliminado. O pensamento que pretendia ordenar o real termina por reduzir sua potência. A crítica, quando se limita a denunciar o controle, frequentemente o repete, pois opera nos mesmos termos que pretende superar. O problema não é apenas político; é estrutural: a forma de inteligibilidade já contém o gesto que captura. Contra essa captura, alguns textos insistem no corpo como lugar de resistência. Mas não se trata de opor liberdade a dominação, como se houvesse um exterior intacto. A experiência estética, quando pensada a partir do gesto, não liberta. Ela expõe o corpo às forças que o atravessam sem resolvê-las. A resistência não é pureza; é fricção interna. O corpo que dança não escapa à normatização: a desloca momentaneamente, ao preço de se expor novamente a ela. Esse preço aparece de forma crua quando o corpo é capturado pela moral do desempenho. Aqui, não há coerção externa evidente. A exigência opera por dentro. A produtividade deixa de ser medida e se torna valor. O fracasso não é evento; é culpa. O corpo, então, não apenas trabalha, responde. Cada cansaço precisa ser justificado, cada limite convertido em falha individual.

O sofrimento não denuncia o sistema: o confirma.

Diante disso, a clínica é convocada a se deslocar. Não basta escutar é preciso inventar dispositivos que reinstalem a presença onde ela foi erodida. A aposta em práticas que reintroduzem risco e corpo não é terapêutica no sentido clássico: ela não estabiliza, desestabiliza de outro modo. Ao expor o sujeito a uma experiência que não pode ser totalmente prevista ou controlada, algo da relação com o mundo se reabre. Não como solução, mas como possibilidade precária de inscrição. Essa precariedade atravessa também as formas de sexuação. Quando modelos universalizantes são aplicados como norma, eles deixam de descrever e passam a produzir exclusão. A tentativa de sustentar uma estrutura única revela seu limite ao encontrar aquilo que não se deixa reduzir a ela.

O impasse não é resolvido pela substituição de um modelo por outro, mas pela impossibilidade de universalizar sem violência. A clínica, se quiser manter alguma ética, deve operar nesse ponto de não-saber. O mesmo vale para as formas mais sedimentadas de dominação. O patriarcado não persiste apenas por imposição explícita, mas por pedagogias difusas que organizam o sensível e o imaginável. A violência não é exceção; é aprendizagem. E, por isso, não basta denunciá-la como desvio: é preciso reconhecer que ela está inscrita nas formas ordinárias de socialização. O problema não é identificar culpados, mas desativar os dispositivos que produzem sujeitos capazes de agir assim. No plano epistêmico, a tensão reaparece sob outra forma. A tentativa de universalizar teorias produzidas em outros contextos não apenas desloca o objeto, deforma. Mas a recusa pura da teoria não resolve o problema: condena o pensamento à repetição empírica. O impasse não admite solução fácil. Pensar exige sustentar a tensão entre forma e material sem reduzi-la a um dos polos. E, talvez, seja esse o ponto de inflexão desta edição: não há exterior seguro. Nem na clínica, nem na política, nem na teoria. Até mesmo os esforços de crítica carregam aquilo que pretendem negar.

A aproximação com perspectivas decoloniais revela essa ambiguidade: ao mesmo tempo em que abrem o campo, expõem os limites internos de um saber que nunca foi neutro. A questão deixa de ser “corrigir” e passa a ser outra: o que pode ainda operar quando não há mais garantia de fundamento? Se há uma consequência não antecipada que atravessa todos os textos, é esta: o corpo, tomado como lugar de resistência, não é exterior ao regime que o captura. Ele é um de seus efeitos. E, no entanto, é também onde esse regime falha. Não por pureza, mas por excesso. Não por liberdade, mas por impossibilidade de fechamento. Este editorial não apresenta uma resposta. Ele marca um limite: o ponto em que nossas categorias começam a falhar, e justamente por isso, ainda podem produzir pensamento.

 

Wellington Lima Amorim, escritor, filósofo e psicanalista.

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Publicado: 13-04-2026

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