Vol. 15 N.º n. 37 (2025): Subjetividades em Chamas

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Há épocas em que a vida parece correr com tal velocidade que o próprio sujeito se vê arrastado para dentro de uma fogueira silenciosa: ardemos sem saber exatamente o que arde. Vivemos num tempo em que a exposição contínua, a performance permanente, o brilho das telas, o apelo do mercado e a vigilância difusa do outro produzem uma pressão íntima e ubíqua. Somos convocados a sermos mais: mais eficientes, mais visíveis, mais ajustáveis, mais felizes. E, nesse excesso, algo de nós se consome. Esta edição de Cadernos Bauman parte desse incêndio discreto para pensar o que resta e o que resiste quando os modos de existir são atravessados pela técnica, pela moral, pelo trabalho, pelo corpo e pela festa. Aqui, a chama não é metáfora vazia: ela é temperatura, fricção, matéria viva. São subjetividades que se reconfiguram no calor das tensões contemporâneas. No primeiro movimento, o questionamento sobre a dependência tecnológica revela não um combate à máquina, mas à captura da sensibilidade e da capacidade de estar consigo e com o outro. Nos perguntamos o que se perde quando a atenção é reduzida a estímulo e resposta. Em seguida, a educação surge como território atravessado pelo imperativo do desempenho, onde o tempo contemplativo é rarefeito e o sujeito passa a administrar sua própria vida como uma empresa de si. Ainda assim, há frestas: pausas, suspensões, o direito de não produzir. A chama também se faz corpo. Ao acompanhar a trajetória de Claudia Wonder, vemos como a identidade pode ser obra em constante reinvenção, movimento ético e estético que rasga as camadas de gênero, moralidade e representação. O corpo torna-se acontecimento político. Na esfera organizacional, a liderança e o feedback revelam o quão intrincadas são as relações entre poder e cuidado. Mesmo onde tudo parece cálculo, a subjetividade insiste em pedir espaço para respirar. No campo econômico, a discussão sobre consumo consciente e economia circular desloca o foco: pensar sustentabilidade não é apenas rever práticas produtivas, mas questionar o modo como desejamos, adquirimos e descartamos o mundo. O fogo atinge a própria lógica do valor. Por fim, o Carnaval Carioca, submetido ao controle moral, reaparece como uma pedagogia visual de resistência: um corpo coletivo que se ergue, dança e se reinventa diante da tentativa de disciplinar a festa, a alegria e a memória. Onde querem ordem, a rua responde com canto. Em todos os artigos, há um mesmo gesto: o de dizer que, mesmo quando tudo parece destinado a apagar o brilho, há brasas que permanecem incandescentes. Subjetividades não são cinzas, são matéria em combustão. E, quando ardem, iluminam o que a normalização tenta ocultar. Que esta edição seja menos um diagnóstico e mais um convite: aproximem-se, sintam o calor, leiam devagar. O que está em jogo não é apenas compreender o mundo, mas escutar o fogo que ainda pulsa dentro dele.

Publicado: 2025-11-19