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CHAMADA PARA PUBLICAÇÃO: VEREDAS INTERCULTURAIS ENTRE RÚSSIA E BRASIL (E OUTRAS PARAGENS LUSÓFONAS)

 

Nas últimas décadas, houve enorme crescimento das traduções diretas do russo no Brasil. Entretanto, é falso pensar que antes só se traduzia indiretamente – do francês, inglês ou espanhol. A história da tradução direta começa muito antes, em iniciativas isoladas, como foi o caso da Biblioteca de Autores Russos, de Georges Selzoff (Iúri Zeltzóv), cujo modus operandi, segundo nos conta Boris Schnaiderman, consistia em ir “traduzindo os textos como podia, em voz alta, para dois escritores em início de carreira, Brito Broca e Orígenes Lessa, que os redigiam em nossa língua” (SCHNAIDERMAN, 2011, p. 45).

O que distingue o momento atual é a predominância das traduções diretas; a ampliação do catálogo, incluindo autores contemporâneos, sem deixar de lado os clássicos e a literatura soviética; e o crescimento do número de tradutores vinculados aos cursos de graduação e pós-graduação em russo das universidades brasileiras. Esse quadro já se divisava na década de 1990, quando Aurora Bernardini publicou um apanhado do percurso do estudos de russo na Universidade de São Paulo (USP). Além dos cursos de graduação em russo da USP e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), há disciplinas de russo eletivas na Universidade de Campinas (UNICAMP), na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRJ) e na Universidade Federal Fluminense (UFF). De tempos em tempos, acontecem iniciativas de ensino de língua, cultura e literatura russa como atividade de extensão em outras instuituições de ensino superior, como a Universidade Estadual do Ceará (UECE) e a Universidade de Brasília (UnB).

As contribuições de outros cursos e outras áreas para a eslavística brasileira também merecem destaque. A tendência de realização de pesquisas de caráter interdisciplinar apontada por Bernardini, com participação ativa “em grupos de estudo como Literaturas modernas em língua estrangeira, Literatura e história, Cultural oriental e cultural ocidental: projeções, Multiculturalismo brasileiro: fisionomia e presenças orientais, Culturas orientais e modernidades” (1994), permanece até hoje.

Na via contrária ao fluxo português-russo, as traduções do português para o russo também têm ganhado importância, com o incremento do Perevodovedenie, como são chamados os Estudos da Tradução na Rússia. Afinal, a literatura em seu sentido contemporâneo, como escrita secular, só surgiu na Rússia no século 18, ou seja, centenas de anos após Dante, Shakespeare, Cervantes e Rabelais (Friedberg). Foi em um período muito curto de tempo que a nação russa produziu um corpo de escrita reconhecido como equiparável àquele proveniente de tradições literárias muito mais antigas e ricas. Mas, já em 1857, Tchernichevski escrevia: “A literatura traduzida é de enorme importância para nós. Até Puchkin, ela era incomparavelmente mais importante que a [escrita] original russa. E, mesmo agora, não é totalmente certo que a escrita [russa] tenha se tornado mais importante que as traduções” (apud FRIEDBERG, 2008). Como escreve Friedberg : “Apesar de algumas da maiores obras literárias mundiais terem sido escritas, a partir daí, em russo, as traduções mantiveram sua importância. À exceção do período xenofóbico do governo Stálin, ficção, poesia e drama da Europa ocidental traduzidos conservaram seu lugar de costume como parte da porta integrante da cota de leitura de praticamente todo o russo que ama livros.” (FRIEDBERG, 2008)

 
Publicado: 2020-07-23 Mais...
 

CHAMADA PARA NÚMERO ESPECIAL: TRADUZIR A PANDEMIA

 
A pandemia pelo Covid-19 e o distanciamento / isolamento social requerido por um ambiente epidemiologicamente inseguro têm gerado impactos ainda impossíveis de serem mensurados em diversos âmbitos para além da saúde pública, abarcando as relações laborais, econômicas, educacionais e afetivas. Distintos grupos sociais em distintas culturas vêm precisando lidar com novas formas de luto e também de cuidado, de mobilização e de comunicação. Expressões estrangeiras, como “lockdown”, para mencionar o confinamento obrigatório, e termos técnicos, como os referentes aos diversos tipos de máscaras de proteção respiratória, passaram a fazer parte da linguagem cotidiana e evidenciaram vulnerabilidades sociais, linguísticas e cognitivas a demandar esforços tradutórios. A necessidade de rápida disseminação das descobertas científicas e de revisão constante de protocolos para a gestão da emergência sanitária puseram em destaque o papel da tradução no sentido mais usual deste termo, ou seja, de transpor línguas nacionais. Contudo, outras traduções foram necessárias para democratizar orientações e impuseram a nações heterogêneas e com sérias fraturas históricas, como o Brasil, a necessidade de debater (ainda que em âmbito não acadêmico) e propor formas de comunicação para a transposição de barreiras culturais. Nesse contexto, a revista Cadernos de Tradução do Instituto de Letras da UFRGS (Porto Alegre – on-line - ISSN: 2594-9055) propõe este número especial com o objetivo de compilar experiências de tradução, mediação linguística e disseminação de informações, seja entre idiomas estrangeiros, seja no âmbito interno das nações para abarcar comunidades de línguas minorizadas, tais como a comunidade surda, os diversos povos originários e quilombolas, pessoas em situação de refúgio ou migração, mas também grupos que, embora falantes da língua hegemônica, possam ser sensibilizados por uma comunicação direcionada a suas características etárias, de gênero, de classe, de origens sociais ou regionais. Nesse sentido, pretende-se reunir relatos de experiências, análises e comentários teórico-críticos, além de traduções de artigos científicos que tratem sobre políticas linguísticas, mediações linguístico-culturais e disseminação de informações no contexto da pandemia. São igualmente aceitos artigos e traduções de artigos científicos sobre as consequências da pandemia no presente e nas estimativas para o futuro da humanidade no que venham a demandar políticas linguísticas e novos modos de disseminar conhecimento. São mais que bem-vindas as reflexões interdisciplinares e de profissionais da saúde ou na linha de frente de tomadas de decisão que envolvam grupos de línguas minorizadas, pessoas em situação de migração ou de refúgio ou que tenham dificuldade em compreender e se fazer compreender em línguas oficiais nesse contexto da pandemia.  
Publicado: 2020-06-16 Mais...
 
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