Bd. 15 Nr. 46 (2025): GÊNERO & VIOLÊNCIA: assédio sexual e as dinâmicas de poder
O assédio sexual não é um desvio da ordem, mas sua expressão mais fiel quando o poder encontra um corpo marcado como disponível. “Gênero” aqui não nomeia uma identidade, mas uma tecnologia de distribuição de vulnerabilidade; “violência” não irrompe, circula, organiza, administra. A cena não começa no ato explícito, mas na coreografia silenciosa que antecede qualquer toque, olhares que autorizam, silêncios que sancionam, hierarquias que ensinam quem pode insistir e quem deve recuar. De um lado, a promessa de autonomia que afirma sujeitos livres e iguais; de outro, a maquinaria cotidiana que reinscreve assimetrias sob a forma de desejo, oportunidade, “brincadeira”. O assédio aparece, então, como uma pedagogia negativa: ensina limites sem jamais nomeá-los, produz consentimentos fatigados, converte recusa em risco. Mas a própria denúncia desloca o terreno, ao expor a regra, revela que o poder depende de sua invisibilidade. Surge a inflexão: se a violência precisa ser naturalizada para operar, sua explicitação não apenas a combate, também reconfigura o campo onde ela era eficaz. O custo é real, reputações, empregos, pertencimentos, e a ética permanece aberta: romper o circuito pode exigir perder o lugar que o circuito oferecia. Aqui, o conflito não se resolve; ele redistribui quem paga o preço de tornar visível o que sustentava o jogo.


