A reparação por perseguição política e os relatos de violência nas Caravanas da Anistia

Authors

  • João Baptista Alvares Rosito Mestre em Antropologia Social – Brasil
  • Arlei Sander Damo Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Brasil

Abstract

Resumo: Este artigo analisa os relatos públicos de violência e sofrimento na execução de uma política reparatória por perseguições políticas empreendidas durante a ditadura militar brasileira (1964-1985). A partir de uma etnografia nas Caravanas da Anistia, sessões públicas e itinerantes de análise de requerimentos de reparação econômica e anistia política baseados na lei nº 10.559/2002, reflete-se sobre o papel dos relatos e dos testemunhos enunciados em tal configuração pelos diferentes sujeitos envolvidos nesse processo. Sustenta-se que as caravanas conformam uma cena pública peculiar e uma arena de escuta e enunciação de narrativas sobre as experiências de violência sofridas, em uma cadeia discursiva em que as posições de orador e ouvinte alternam-se constantemente. Tais relatos e testemunhos assumem diferentes papéis, podendo ser entendidos ora como argumentos para a concessão da reparação pleiteada, ora como revelação de um sofrimento nunca antes contado ou ainda como atualização de engajamentos e de reivindicações das vítimas por outras formas de reparação.

Palavras-chave: anistia, ditadura militar, reparação, sofrimento.

 

Abstract: In this article I analyze the public narratives of violence and grief in the implementation of a reparatory policy related to the political persecutions during the 1964-1985 military government in Brazil. The public and itinerant sessions in which the petitions for economic repair and amnesty policy were analyzed on the bases of the 10559 law, and which came to be known as the ‘Caravans da Anistia’, were the scenario of the ethnographic research for the reflections on role of the narratives and testimonies brought about in such context. I sustain that the ‘Caravanas’ constitute a peculiar political scene and an arena for the enunciation and hearing of narratives about the violence suffered by the people involved, in a discursive chain in which the positions of speaker and listener alternate uninterruptedly. Such narratives and testimonies are granted diverse roles; they can be taken as arguments in the struggle for the reparations targeted, as the revelation of some personal grief that had never been spoken out so far or, still, as a form of refreshing the victims’ engagements and the claims for some other forms of reparation.

Keywords: amnisty, military government, reparation, violence.

Downloads

Download data is not yet available.

References

BOURDIEU, P. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.

BOURDIEU, P. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Edusp, 2008.

BRASIL: NUNCA MAIS: um relato para a história. Prefácio de D. Paulo Evaristo Arns. Petrópolis: Vozes, 1985.

BRASIL. Lei nº 6.683, de 28 de agosto de 1979. Concede anistia e dá outras providências. Brasília, 1979. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L6683compilada.htm>. Acesso em: 29 dez. 2013.

BRASIL. Lei nº 9.140, de 04 de dezembro de 1995. Reconhece como mortas pessoas desaparecidas em razão de participação, ou acusação de participação, em atividades políticas, no período de 2 de setembro de 1961 a 15 de agosto de 1979, e dá outras providências. Brasília, 1995. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9140compilada.htm>. Acesso em: 29 dez. 2013.

BRASIL. Lei nº 10.559, de 13 de novembro de 2002. Regulamenta o art. 8º do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias e dá outras providências. Brasília, 2002. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10559.htm>. Acesso em: 29 dez. 2013.

BRASIL. Secretaria Especial dos Direitos Humanos. Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. Direito à verdade e à memória: Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. Brasília: Secretaria Especial dos Direitos Humanos, 2007.

BRASIL. Lei nº 12.528, de 18 novembro de 2011. Cria a Comissão Nacional da Verdade no âmbito da Casa Civil da Presidência da República. Brasília, 2011. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2011/Lei/L12528.htm>. Acesso em: 29 dez. 2013.

FASSIN, D. Vers une théorie des économies morales. In: FASSIN, D.;

EIDELIMAN, J.-S.n (Org.). Économies morales contemporaines. Paris: La Découverte, 2012. p. 19-52.

FONSECA, C.; MARICATO, M. Criando comunidade: emoção, reconhecimento e depoimentos de sofrimento. Intersecções, v. 15, n. 2, p. 252-274, dez. 2013.

GRECO, H. Dimensões fundacionais da luta pela anistia. Tese (Doutorado em História)–Faculdade de filosofia e ciências Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2003.

HONNETH, A. Luta por reconhecimento: a gramática moral dos conflitos sociais. São Paulo: Ed. 34, 2003.

JIMENO, M. Emoções e política: a vítima e a construção de comunidades emocionais. Mana, v. 16, n. 1, p. 99-121, 2010.

JIMENO, M., VARELA, D., CASTILLO, A. Experiencias de violência: etnografía y recomposición social em Colombia. Sociedade e Cultura, Goiânia, v. 14, n. 2, p. 275-285, jul./dez. 2011.

LULA DESCARTA ‘revanchismo’ no lançamento de livro sobre mortos e desaparecidos. UOL. Últimas notícias, 29 ago. 2007. Disponível em: <http://noticias.uol.com.br/ultnot/2007/08/29/ult23u535.jhtm>. Acesso em: 29 dez. 2013.

MEZAROBBA, G. Um acerto de contas com o futuro: a anistia e suas conseqüências: um estudo do caso brasileiro. São Paulo: Humanitas: Fapesp, 2006.

MEZAROBBA, G. O preço do esquecimento: as reparações pagas às vítimas da ditadura militar (uma comparação entre Brasil, Argentina e Chile). Tese (Doutorado em Ciência Política)–Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas,. Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007.

POLLAK, M. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, p. 3-15, 1989.

POLLAK, M. Memória e identidade social. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 5, n. 10, p. 200-212, 1992.

RODEGHERO, C., DIENSTMANN, G., TRINDADE, T. Anistia ampla, geral e irrestrita: história de uma luta inconclusa. Santa Cruz do Sul: EDUSC, 2011.

ROSITO, J. B. A. A justiça fora dos palácios de mármore de Brasília: a construção de um ritual político nas Caravanas da Anistia. Revista da Anistia Política, n. 3, p. 308-333, 2010a.

ROSITO, J. B. A. “O Estado pede perdão”: a reparação por perseguição política e os sentidos da anistia no Brasil. 2010. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social)–Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2010b.

ROSITO, J. B. A. Caravanas da Anistia: elementos de uma nova política reparatória no Brasil. In: COELHO, M. J. H.; ROTTA, V. (Org.). Caravanas da Anistia: o Brasil pede perdão. Brasília: Ministério da Justiça: Comunicação, Estudos e Consultoria, 2012. v. 1, p. 292-299.

SARTI, C. Corpo, violência e saúde: a produção da vítima. Sexualidad, Salud y Sociedad: Revista Latinoamericana, n. 1, p. 89-103, 2009.

SARTI, C. A vítima como figura contemporânea. Caderno CRH, Salvador, v. 24, n. 61, p. 51-61, jan./abr. 2011.

SEQUEIRA, C. D.; VALENTE, R. Comissão aprovou R$2,9 bi de indenização a anistiados. Folha de S. Paulo, São Paulo, p. A4, 12 abr. 2008.

Published

2015-06-22