O sofrer, o narrar, o agir: dimensões da mobilização social de familiares de vítimas
Abstract
Resumo: Este trabalho consiste em uma análise da relação entre acontecimentos de violência contra meninos de 8 a 15 anos, na cidade de Altamira, Pará, e as ações subsequentes organizadas por seus familiares. Narrando suas trajetórias de mobilização, os familiares das vítimas constroem a “luta” como sendo um “caminho cheio de espinhos”, pontuado por decepções. Todavia, é justamente esse penoso caminhar que lhes provoca a sensação de proximidade com seus filhos e irmãos. A mobilização configura-se como recurso encontrado para “fazer alguma coisa” por seus meninos, assim evitando que os crimes pudessem se repetir e também para que as vítimas não fossem jamais esquecidas. A análise privilegiará a dimensão da fala em sua potencialidade curativa, mas que é também capaz de fazer reviver, nos corpos e nas almas de mães, irmãs e pais de vítimas, dores e sofrimentos descritos como sendo os piores de suas vidas.
Palavras-chave: Amazônia, emoções, evento crítico, mobilização social.
Abstract: This paper aims to analyze the relationship between events of violence against boys from eight to fifteen years in Altamira, Pará, and the subsequent actions organized by their families. Narrating their trajectories of mobilization, the victims’ relatives create their “fight” as a “thorny path”, punctuated by disappointments. However, this is just painful walk that provokes the feeling of closeness with their sons and brothers. The mobilization appears as a resource found to “do something” for their children, thus preventing the crimes could be repeated and so that the victims were never forgotten. The analysis will focus on the dimension of speech in its curative potential, but is also capable of reviving, in the bodies and feelings of mothers, sister and fathers of victims, sufferings and pains described as the worst of their lives.
Keywords: Amazon, critical event, emotions, social mobilization.
Downloads
References
ALMEIDA, A. W. B. de. O intransitivo da transição: o Estado, os conflitos agrários e a violência na Amazônia (1965-1988). In: OLIVEIRA, J. P. de (Org). Projeto Calha Norte: militares, índios e fronteiras. Rio de Janeiro: PETI, Museu Nacional, 1990. (Antropologia e Indigenismo, n. 1). p. 117-138.
ALMEIDA, A. W. B. de. Conflito e mediação: os antagonismos sociais na Amazônia segundo os movimentos camponeses, as instituições religiosas e o Estado. Rio de Janeiro: Tese (Doutorado em Antropologia Social)–Museu Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1993.
ARAÚJO, F. Das consequências da “arte” macabra de fazer desaparecer corpos: violência, sofrimento e política entre familiares de vítima de desaparecimento forçado. Tese (Doutorado em Sociologia e Antropologia)–Instituto de Filosofia e Ciências sociais, Universidade Federal do Rio Janeiro, Rio de Janeiro, 2012.
AUSTIN, J. L. How do things with words. Oxford: Oxford University Press, 1986.
BOLTANSKI, L. La dennonciation. Actes de La Recherche en Sciences Sociales, v. 51, p. 3-40, 1984.
BUTLER, J. Antigona’s claim: kinship between life and death. New York: Columbia University Press, 2000.
COMERFORD, J. Fazendo a luta: sociabilidade, fala e rituais na construção de organizações camponesas. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1999.
COMERFORD, J. Como uma família: sociabilidade, territórios de parentesco e sindicalismo rural. Rio de Janeiro: Relume-Dumará: NuAP, 2003. (Coleção Antropologia da Política).
COMISSÃO PASTORAL DA TERRA. Conflitos no campo Brasil 2011. Organização de Antonio Canuto, Cassia Regina da Silva Luz e Isolete Wichinieski. Goiânia: CPT Nacional Brasil, 2012.
COSTA, R. de C. P. Como uma comunidade: formas associativas em Santo Antonio/PA – imbricações entre parentesco, gênero e identidade. Dissertação (Mestrado em Antropologia)–Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Pará, Belém 2008.
DAS, V. Critical events: an anthropological perspective on contemporary India. Delhi: Oxford University Press, 1996.
DAS, V. Life and words: violence and the descent into the ordinary. Berkeley: University of California Press, 2007.
DAS, V.; POOLE, D. El Estado y sus márgenes: etnografías comparadas. Trad. de María Dales y Julia Piñeiro. Cuadernos de Antropología Social, n. 27, p. 19-52, 2008.
D’INCAO, M. A.; COTTA JR., H. Transformações e permanências no espaço feminino na agricultura do Pará. In: D’INCAO, M. A. et al. Mulher e modernidade na Amazônia. Belém: Gepem/CFCH/UFPA, 2001. t. 2, p. 429-466.
DUARTE, L. F. D. Pouca vergonha, muita vergonha: sexo e moralidade entre as classes trabalhadoras urbanas. In: LOPES, J. S. L. (Org). Cultura e identidade operária: aspectos da cultura da classe trabalhadora. Rio de Janeiro: UFRJ/Museu Nacional: Marco Zero, 1987. p. 203-226.
DURÃO, S.; COELHO, M. C. P. Moral e emoção nos movimentos culturais: estudo da “tecnologia social” do Grupo Cultural AfroReggae. Revista de Antropologia, São Paulo, v. 55, n. 2, p. 899-935, 2012.
DURHAM, E. Movimentos sociais: a construção da cidadania. In: DURHAM, E. A dinâmica da cultura. São Paulo: Cosac & Naify, 2004. p. 281-294.
DURKHEIM, E. Julgamentos de valor e julgamentos de realidade. In: DURKHEIM, E. Sociologia e filosofia. Rio de Janeiro: Forense, 1970. p. 84-99.
FERREIRA, L. C. de M. Uma etnografia para muitas ausências: o desaparecimento de pessoas como ocorrência policial e problema social. Tese (Doutorado em Antropologia Social)–Museu Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2011. Disponível em : <http://teses2.ufrj.br/72/teses/768084.pdf>. Acesso em: 9 dez. 2013.
FLAM, H.; KING, D. Emotions and social movements. London: Routledge, 2005.
FONSECA, C. Família, fofoca e honra: a etnografia de violência e relações de gênero em grupos populares. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2000.
GAXIE, D. Économie des partis et rétribuitions du militantisme. Revue Française de Science Politique, v. 27, n. 1, p. 123-154, 1977.
GOODWIN, J.; JASPER, J.; POLLETTA, F. Passionate politics: emotions and social movements. Chicago: University of Chicago Press, 2001.
GREGORI, M. F. Cenas e queixas: um estudo sobre mulheres, relações violentas e prática feminista. São Paulo: Paz e Terra: Anpocs, 1993.
HÉBETTE, J. Reprodução social e participação política na fronteira agrícola paraense: o caso da Transamazônica. In: HÉBETTE, J.; MAGALHÃES, S.; MANESCHY, M. C. (Org.). No mar, nos rios e na fronteira: faces do campesinato no Pará. Belém: EDUFPA, 2002. p. 203-232.
HEILBORN, M. L. O traçado da vida: gênero e idade em dois bairros populares do Rio de Janeiro. In: MADEIRA, F. (Org.). Quem mandou nascer mulher?: gênero e infância pobre no Brasil. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1997. p. 291-342.
KLEINMAN, A.; DAS, V.; LOCK, M. (Org.). Social suffering. Berkeley: University of California Press, 1997.
LACERDA, P. O “caso dos meninos emasculados de Altamira”: polícia, justiça e movimento social. Tese (Doutorado em Antropologia Social)–Museu Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. 2012. Disponível em: <http://teses2.ufrj.br/72/teses/784602.pdf>. Acesso em: 9 dez. 2013.
LACERDA, P. Movimentos sociais na Amazônia: articulações possíveis entre gênero, religião e Estado. Boletim do Museu Paraense Emilio Goeldi Ciências Humanas, Belém, v. 8, n. 1, p. 153-168, jan./abr. 2013.
LEITE, M. P. As mães em movimento. In: LEITE, M.; BIRMAN, P. (Org.). Um mural para a dor: movimentos cívico-religiosos por justiça e paz. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2004. p. 141-190.
MANESCHY, M. C.; ALMEIDA, M. Tornar-se pescadora; associações de mulheres e constituição de sujeitos políticos. In: HÉBETTE, J.; MAGALHÃES, S.; MANESCHY, M. C. (Org.). No mar, nos rios e na fronteira: faces do campesinato no Pará. Belém: EDUFPA, 2002. p. 47-82.
MAUÉS, R. H. Comunidade no “sentido social da evangelização”: CEBs, camponeses e quilombolas na Amazônia oriental brasileira. Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, v. 30, n. 2, p. 13-37, 2010.
MENEZES, R. A. Em busca da boa morte: antropologia dos cuidados paliativos. Rio de Janeiro: Garamond: Fiocruz, 2004.
PANTOJA, A. L. Sendo mãe, sendo pai: sexualidade, reprodução e afetividade entre adolescentes de grupos populares em Belém. Tese (Doutorado em Ciências Sociais)–Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Pará, Belém, 2007.
PEIRANO, M. Prefácio: rituais como estratégia analítica e abordagem etnográfica. In: PEIRANO, M. (Org.). O dito e o feito: ensaios de antropologia dos rituais. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2001. p. 7-14.
PITA, M. V. Formas de morir y formas de vivir: el activismo contra la violencia policial. Buenos Aires: Del Puerto/CELS, 2010. (Serie Revés, Antropología Jurídica y Derechos Humanos, 2).
POLLETTA, F.; AMENTA, E. Second that emotion? Lessons from once-novel concepts in social movement reserarch. In: GOODWIN, J.; JASPER, J.; POLLETTA, F. Passionate politics: emotions and social movements. Chicago: University of Chicago Press, 2001. p. 303-316.
REZENDE, C.; COELHO, M. C. Antropologia das emoções. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2010.
SCHEPER-HUGHES, N. Death without weeping: the violence of every day life in Brazil. Berkeley: University of California Press, 1992.
SCHEPER-HUGHES, N. A talent for life: reflections on human vulnerability and resilience. Ethnos, v. 73, n. 1, p. 25-56, March 2008.
SILVA, M. I. C. da. Mulheres migrantes na Transamazônica: construção da ocupação e do fazer política. Tese (Doutorado em Ciências Sociais)–Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Pará, Belém, 2008.
SOUZA, A. P. O desenvolvimento socioambiental na Transamazônica: a trajetória de um discurso de muitas vozes. Dissertação (Mestrado em Agriculturas Familiares e Desenvolvimento sustentável)–Centro Agropecuário, Universidade Federal do Pará, 2006.
TAUSSIG, M. Xamanismo, colonialismo e o homem selvagem: um estudo sobre o terror e a cura. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993.
TURNER, V. Floresta de símbolos: aspectos do ritual ndembu. Niterói: Editora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2005.
TURNER, V. Dramas, campos e metáforas: ação simbólica na sociedade humana. Niterói: Editora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2008.
VAN GENNEP, A. Os ritos de passagem. Petrópolis: Vozes, 1977.
VIANNA, A.; FARIAS, J. A guerra das mães: dor e política em situações de violência institucional. Cadernos Pagu, n. 37, p. 79-116, jul./dez. 2011.
VÍCTORA, C. G.; RUAS-NETO, A. L. Querem matar os ‘últimos Charruas’: sofrimento social e a ‘luta’ dos indígenas que vivem nas cidades. Revista Anthropológicas, ano 15, v. 22, n. 1, p. 37-59, 2011.
Published
Issue
Section
License
Autores que publicam nesta revista concordam com os seguintes termos:- O envio dos trabalhos implica a cessão imediata e sem ônus dos direitos de publicação para a revista, a qual é filiada ao sistema Creative Commons, atribuição CC-BY (https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/). O autor é integralmente responsável pelo conteúdo do artigo e continua a deter todos os direitos autorais para publicações posteriores, devendo, se possível, fazer constar a referência à primeira publicação na revista.
- Autores têm autorização para assumir contratos adicionais separadamente, para distribuição não-exclusiva da versão do trabalho publicada nesta revista (ex.: publicar em repositório institucional ou como capítulo de livro), com reconhecimento de autoria e publicação inicial nesta revista.
- Autores têm permissão e são estimulados a publicar e distribuir seu trabalho online (ex.: em repositórios institucionais ou na sua página pessoal) a qualquer ponto antes ou durante o processo editorial, já que isso pode gerar alterações produtivas, bem como aumentar o impacto e a citação do trabalho publicado (Veja O Efeito do Acesso Livre).
