Cinquenta anos após a publicação de Les Vérités de La Palice (1975), revisitar Pêcheux é retomar uma teoria que transformou a compreensão da linguagem enquanto prática social, histórica e ideológica. Este texto delineia a sua trajectória teórica, do estruturalismo francês à fase da retificação, expressa no Anexo 3 da edição americana Language, Semantics and Ideology (1982). Sintetiza as quatro partes dessa obra fundadora, salientando os conceitos que sustentam a Análise do Discurso (AD) materialista, e examina a autocrítica de Pêcheux em “Só há causa naquilo que falha”, relacionando-a ao papel da psicanálise lacaniana no seu pensamento. Conclui-se que a AD constitui uma teoria em permanente construção, que exige do investigador a mesma abertura epistemológica às retificações e actualizações que o próprio autor cultivou. Essa abertura, contudo, não implica abdicar dos seus fundamentos: a centralidade da ideologia na sua contradição constitutiva; o sujeito interpelado, mas cindido e capaz de resistência; e a língua, espaço privilegiado de confronto dessas forças. Ignorar essas colunas é afastar-se da AD pecheutiana. Defende-se, por fim, uma AD materialista comprometida com o político, o ético e o estético — com a polis, a alteridade e a construção de um mundo mais justo.