Cinquenta anos após a publicação de Les Vérités de La Palice (1975), revisitar Pêcheux é retomar uma teoria que transformou a compreensão da linguagem como prática social, histórica e ideológica. Este texto delineia sua trajetória teórica, do estruturalismo francês à fase da retificação, expressa no Anexo 3 da edição americana Language, Semantics and Ideology (1982) e na tradução brasileira Semântica e Discurso (1988). Sintetiza as quatro partes dessa obra fundadora, ressaltando os conceitos que sustentam a Análise de Discurso (AD) materialista, e examina a autocrítica de Pêcheux em “Só há causa naquilo que falha”, relacionando-a ao papel da psicanálise lacaniana em seu pensamento. Conclui-se que a AD constitui uma teoria em permanente construção, que exige do pesquisador a mesma abertura epistemológica para retificações e atualizações que o autor cultivou. Essa abertura, contudo, não implica abdicar de seus fundamentos: a centralidade da ideologia em sua contradição constitutiva; o sujeito assujeitado, mas cindido e capaz de resistência; e a língua, espaço de confronto dessas forças. Ignorar essas colunas é afastar-se da AD pecheutiana. Defende-se, por fim, uma AD materialista comprometida com o político, o ético e o estético — com a polis, a alteridade e a construção de um mundo mais justo.