V. 15 N. 39 (2025): Poder, conflito e subjetividade no mundo contemporâneo
Há épocas em que a história avança devagar, quase respeitosa. Esta não é uma delas. O tempo corre, escorre, tropeça em si mesmo. Instituições rangem. Laços se afrouxam. O que ontem parecia sólido hoje já pede desculpa por existir.
Esta edição nasce desse chão instável. Os textos aqui reunidos interrogam as formas de vida sob pressão em um mundo marcado pela fluidez, pelo conflito e pela reorganização contínua do poder. Entre Heráclito e Bauman, entre o fogo que tudo transforma e a liquidez que dissolve as certezas, emerge uma questão comum: como viver, agir e pensar quando a permanência deixou de ser promessa?
A edição percorre territórios diversos, mas atravessados por tensões semelhantes. A formação de intelectualidades periféricas e suas disputas por reconhecimento. Os limites da participação política em democracias que prometem mais do que entregam. A rua como espaço de confronto, onde corpos arriscam a própria integridade em nome de dignidade. As pedagogias silenciosas do patriarcado, que ensinam a violência antes mesmo que ela seja nomeada. E, em escala aparentemente menor, mas não menos decisiva, as microtécnicas de gestão, comunicação e liderança que moldam subjetividades no cotidiano do trabalho.
Não se trata de reunir objetos dispersos, mas de expor um campo de forças. Cada artigo, à sua maneira, revela como o poder opera menos como imposição direta e mais como aprendizagem, adaptação, hábito e medo. A violência não aparece apenas como exceção, mas como método. A política não surge apenas nos parlamentos, mas nas fronteiras, nas casas, nas empresas, nas salas de aula e nas ruas ocupadas.
Esta edição da Cadernos Bauman não oferece sínteses reconfortantes. Prefere a fricção. Prefere o incômodo. Prefere a pergunta que permanece aberta. Em tempos de instabilidade crônica, pensar talvez não seja encontrar saídas, mas recusar atalhos. E sustentar, com algum rigor e alguma coragem, o desconforto de continuar pensando quando tudo pede pressa, simplificação e esquecimento.


