O acervo documental do museu do Colégio Municipal Pelotense e sua importância para a história da educação - The documentary collection of the museum of the Colégio Municipal Pelotense and its importance to the history of education

Giana Lange do Amaral, Brasil

Resumo


O Colégio Municipal Pelotense - CMP - é uma instituição criada em 1902 por iniciativa da Maçonaria. Inicialmente foi instalado na antiga residência de Miguel Barcellos, à rua que atualmente leva o seu nome, onde hoje está a Escola Estadual Monsenhor Queiroz. Em 1903 passou a funcionar no casarão adquirido pela Maçonaria, na rua Félix da Cunha esquina com Tiradentes, no prédio que atualmente está alugado para a Universidade Federal de Pelotas, permanecendo nesse local até 1961, quando foi transferido definitivamente para a rua Marcílio Dias, esquina com a avenida Bento Gonçalves. Ocupa hoje um amplo prédio que abriga mais de três mil alunos do ensino fundamental e médio.

Atualmente o acervo documental dessa instituição encontra-se em três espaços que constituem o Museu do Colégio Pelotense: na Sala Luiz Curi Hallal, em uma sala no terceiro piso e outra no térreo.

O museu compartilha o local com a associação dos ex-alunos, que inicialmente constituiu esse espaço de memória. É importante ressaltar a atuação das associações de ex-alunos nas instituições escolares no Brasil, não só no que diz respeito à manutenção da sua memória e história, mas como um grupo que costuma permanecer atento às necessidades das escolas, principalmente as escolas públicas. No Colégio Pelotense, essa associação, fundada em 1941, tem atuado de modo relevante, desde a sua criação, no que tange ao apoio às práticas realizadas no Colégio, assim como a constituição da história, memória e identidade da escola. Nesse espaço estão expostos vários objetos que remetem à cultura escolar: mobiliário, uniformes, bandeiras, flâmulas, objetos de decoração, objetos utilizados na rotina escolar e em suas práticas, fotografias de diretores, documentos escritos, ocorrendo exposições permanentes e temporárias ligadas direta ou indiretamente à cultura escolar do CMP.

Outra sala onde também se encontra o acervo documental do museu se localiza no piso térreo, onde antes era um banheiro. O local enfrenta problemas de umidade, com circulação inadequada de ar, já que as janelas se localizam junto ao teto. Esse espaço foi transformado em sala para acolher os documentos que remontam à criação do CMP, em 1902, até os dias atuais. São caixas de documentos produzidos e recebidos pela escola no exercício de suas funções. Nelas estão separados por décadas documentos da área contábil, livros de atas de diversas instâncias, livros de termos de compromisso e posse de funcionários e professores, livros e fichas de pontos, folhas de chamadas, livros de matrículas, prontuários de alunos, documentos pessoais de alunos, registros de diplomas, planos de aula.

É importante afirmar que ao mesmo tempo em que se destaca a simplicidade do espaço que acolhe a documentação que compõe o acervo histórico do CMP, poucas são as escolas públicas municipais que possuem tais espaços. Conseguir estes locais e disponibilizar carga horária para os professores desenvolverem seus projetos já é uma conquista. É uma decisão que depende da sensibilidade por parte dos gestores públicos no sentido de liberarem professores da sala de aula para realizarem outras atividades também tão necessárias ao espaço de escolarização, como é o caso do trabalho junto ao Museu.

 As atividades realizadas pelo Museu não se esgotam nas exposições de sua materialidade. Esse tem sido um espaço agregador da história da escola. Não só da sua história passada, estática, imutável, que fica nas prateleiras e arquivos, mas da história viva, contada, construída, que faz emergir do possível esquecimento fatos do cotidiano escolar de hoje e de outros tempos. É um espaço no qual quem tem história para contar - e todos temos - retorna à escola para se encontrar com as novas gerações e realizar o importante exercício de rememorar, ou seja, trazer à memória dos que aqui estão fatos e acontecimentos que se perderiam com o tempo. Assim, são reforçados elos, laços de identidade com uma instituição centenária e singular na comunidade pelotense.

Atualmente, a partir dos projetos Acervos escolares: possibilidade de pesquisa, ensino e extensão no campo da História da Educação e A modernização da matemática em instituições escolares de Pelotas-RS, coordenados por professores ligados ao Centro de Estudos e Investigações em História da Educação - Ceihe - da Universidade Federal de Pelotas, vêm sendo desenvolvidas atividades voltadas à  salvaguarda, identificação, higienização, digitalização e disponibilização do acervo em meios digitais.

É importante esclarecer que nesse trabalho junto ao acervo do Museu do CMP o nosso interesse recai nas práticas educativas e culturais existentes no interior das escolas, associadas à importância crescente da abordagem sobre a história, a memória e a identidade dos diversos grupos que se formaram no interior dessas instituições, em especial a partir de suas práticas, discursos e da materialidade inerente ao espaço escolar que constituem sua cultura escolar.

Para tanto, fazemos uso de metodologias de conservação e organização documental, do campo da museologia e arquivologia, contando com um importante apoio técnico da professora Vanessa Teixeira, professora do Curso de Museologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Essa atividade teve início com a retirada do material que estava no ginásio de esportes, embaixo das arquibancadas. Conseguiu-se, junto à direção do CMP, que fosse liberada uma sala junto à biblioteca para fazermos a separação, higienização e posterior organização e digitalização dos documentos.

Após a separação dos documentos, foram identificados aqueles que poderiam ser doados ao Centro de Documentação do Ceihe.  Esses seriam aqueles papéis que, provavelmente, iriam para o descarte, uma vez que o Colégio não pode guardar todo e qualquer material impresso que produz, pois carece de condições espaciais, de infraestrutura de armazenamento e de pessoal

No que tange a esse material que está sendo trabalhado, mesmo com as perdas sofridas nos últimos anos, pode-se afirmar que ainda é considerável o acervo escolar que remonta às primeiras décadas do século 20. Constata-se que não há muito material da primeira década (1902-1910). Isso, provavelmente, foi resultado de um incêndio que ocorreu na década de 1920 e que destruiu grande parte da documentação da secretaria do antigo prédio do Ginásio Pelotense.

Ressalta-se que estamos cientes de que o simples acúmulo de documentos produzidos cotidianamente pela escola não se constitui em ferramenta de preservação do possível esquecimento das experiências vividas na instituição. É preciso tornar os espaços depositários desses materiais lugares de memória (Nora, 1981) articulando as dimensões material, simbólica e funcional desses resíduos do cotidiano escolar em favor da construção de um sentido coletivo para preservá-los. Isso significa buscar a justa medida entre a organização e o descarte, de modo a se constituir um elo de continuidade e funcionalidade no processo de salvaguarda.

 


 


Palavras-chave


História da Educação; acervo documental; museu escolar

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Referências


AMARAL, Giana Lange do (org.). Museu do Colégio Municipal Pelotense: um espaço para a pesquisa, o ensino e a extensão (2004-2014). Pelotas: Educat, 2014.

NORA, Pierre. A problemática dos lugares. Projeto História, São Paulo, 1981, p. 7-28.

HILSDORF, Maria Lucia Spedo; VIDAL, Diana Gonçalves. O centro de memória da educação USP: acervo documental e pesquisas em história da educação. In: MENEZES, Maria Cristina (org.). Educação, memória, história. Campinas: Mercado de Letras, 2004, p. 179-186.


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