Chamada para o n. 72 - Os múltiplos agenciamentos da experiência literária

Pensar a existência além do sujeito, a partir da multiplicidade das formas de vida no plano da imanência. Essa tarefa, proposta por filósofos (DELEUZE e GUATTARI 1995; LUDUEÑA ROMANDINI 2016; CATREN 2017) e antropólogos (VIVEIROS DE CASTRO 2015; GELL 2018), lança aos teóricos e críticos literários o desafio de se pensar a escrita e a leitura sob outras bases ontológicas. Exige-se, doravante, um deslocamento perspectivístico: o sujeito, outrora entronizado como o ponto de convergência da experiência literária, dá lugar a um sem-número de entidades, objetos e corpos, que desvelam outras possibilidades e aspectos existenciais. Assim, pode-se pensar a literatura como um campo experimental para a encenação da multiplicidade da existência, que torna tanto o fazer literário, quanto sua crítica um exercício de antropologia especulativa (NODARI 2015): implodindo a “metafísica do sujeito” (DERRIDA 2014), os textos literários exercitam essa troca de pontos de vista, expondo o sujeito ao seu desmantelamento na transversalidade do encontro com o Outro. Logo, são as existências mínimas (o que se recolhe para aquém do individuado) ou são as criaturas extra-mundanas (que convocam a um tipo de “xenofilia”) o que se torna matéria de especulação: os mutilados de Samuel Beckett, os seres transcósmicos de H.P. Lovecraft e Ursula Le Guin ou o planeta senciente de Stanislaw Lem, o devir-vegetal de Han Kang, o devir-animal de Olga Tokarczuk e de Yoko Tawada, o tio-onça Iauaretê ou o homem-impredicável Bartleby, a baleia Moby Dick ou a cadela Baleia, todos os animais de Franz Kafka (ou inclusive o seu Odradek), que, por sua vez, evoca os seres imaginários de Jorge Luis Borges, etc. – todas essas figuras possibilitam pensar os agenciamentos literários na construção de uma posição ontológica intermediária entre o “eu-sujeito” e uma linha de fuga por onde pode passar um devir minoritário. O que se exercita na literatura são outras possibilidades do ser, que não se inscrevem no campo social do qual a literatura seria apenas a mimese, mas que, contrariamente, resgatam a potência da vida na sua heterogeneidade. Desse modo, a experiência literária não é a posição de um sujeito, mas um agenciamento coletivo, lugar de passagem de um povo sem nome, um povo por vir (DELEUZE e GUATTARI 2013). À diferença, portanto, de tentativas anteriores de pensar a literatura como um discurso sem sujeito a partir da linguística (HAMBURGUER 1986), o que se vislumbra agora é ver nesta ausência o caminho para uma multiplicação de experiências, conexões parciais e jamais peremptórias, alianças com outros modos de existência (SOURIAU 2009), que remetem àquilo que Anna L. Tsing (2015) e Donna Haraway (2016), cada uma a seu modo, entendem por “viver-com”. Literatura sem sujeito único, sem ponto de vista determinado, pois “Costuma-se imaginar o sujeito como uma variante do 1, mas ele talvez seja, na verdade, uma variante do 0 – isto é, do múltiplo universal” (STERZI 2019).

Convidamos os(as) pesquisadores(as) a contribuírem com reflexões acerca dos agenciamentos literários que favorecem a especulação ontológica sobre os diferentes modos de subjetivação e dessubjetivação, bem como as diferentes existências implicadas na multiplicidade da vida. 

 

Organizadores: Antonio Barros de Brito Junior (UFRGS) e Alexandre Nodari (UFPR) 

 

Submissões de artigos: de 07 de junho a 12 de julho de 2021



Referências

CATREN, Gabriel.  Pleromática o las mareaciones de Elsinor. Buenos Aires: Hekht Libros, 2017.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. 10.000 a.C. – A geologia da moral (Quem a terra pensa que é?). In: DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Vol. 1. Tradução de Célia Pinto Costa. São Paulo: Editora 34, 1995.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Kafka: para uma literatura menor. Tradução de Rafael Godinho. Lisboa: Assírio & Alvim, 2003.

DERRIDA, Jacques. Essa estranha instituição chamada literatura. Uma entrevista com Jacques Derrida. Tradução de Marileide Dias Esqueda. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2014.

GELL, Alfred. Arte e agência: uma teoria antropológica. Tradução de Jamille Pinheiro Dias. São Paulo: Ubu Editora, 2018.

HAMBURGER, Käte. A lógica da criação literária. São Paulo: Perspectiva, 1986.

HARAWAY, Donna. Staying with the trouble. Making kin in the Chthulucene. Durham e Londres: Duke University Press, 2016.

LUDUEÑA ROMANDINI, Fabián.  Principios de espectrología. La comunidad de los espectros II. Buenos Aires: Miño y Dávila, 2016. 

NODARI, Alexandre. A literatura como antropologia especulativa. Revista da Anpoll, Florianópolis, n. 38, p. 75-85, jan./jun. 2015.

SOURIAU, Étienne. Les différents modes d’existence. Paris: Presses Universitaires de France, 2009.

STERZI, Eduardo. Hipóteses. Meteöro, São Paulo, v. 1, 2019.

TSING, Anna Lowenhaupt. The murshroom at the end of the world. On the possibility of life in capitalist ruins. New Jersey: Princeton University Press, 2015.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Metafísicas canibais: elementos para uma antropologia pós-estrutural. São Paulo: Cosac Naify, 2015.