Este artigo analisa o espelhamento e a transmigração entre as crônicas “Persona” (1968) e “A bravata” (1968) e o romance Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres (1969), de Clarice Lispector. Fundamenta-se na teoria da intertextualidade (Kristeva, 1969; Genette, 1982) e na noção de escritura de si, considerando a relação entre autobiografia, máscaras e literatura. Busca-se compreender como a autora reelabora a persona e a máscara nas crônicas, ampliando seus sentidos no romance, em diálogo com as ideias de Edgar Cézar Nolasco sobre a tensão entre vida e obra. A análise evidencia o procedimento de transmigração de gêneros, que desloca fronteiras entre crônica, conto e romance, instaurando um eu metamórfico, desdobrado em personagens e tensionado entre vida e obra. Esse processo ilumina a singularidade da escrita clariciana e sua reflexão sobre a condição feminina moderna.