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Prorrogação da chamada para dossiê temático "O trabalho da ficção"

2026-01-13

Revista PHILIA | Filosofia, Literatura & Arte anuncia prorrogação da chamada para contribuições ao dossiê temático "O trabalho da ficção", organizado por Mônica Zielinsky (UFRGS) e Paula Luersen (UFRGS).

O prazo para o envio dessa chamada amplia-se até 28 de devereiro de 2026.

As contribuições devem ser enviadas no site da revista e redigidas conforme as normas de submissão (acesse as diretrizes para autores).

Já as submissões de temática livre podem ser enviadas até 15 de janeiro de 2026.

Saiba mais sobre Prorrogação da chamada para dossiê temático "O trabalho da ficção"

Chamada para novas submissões - dossiê temático & temática livre

2025-11-12

Revista PHILIA | Filosofia, Literatura & Arte abre nova chamada para submissões, recebendo contribuições de temática livre ou que componham o dossiê temático "O trabalho da ficção".

O prazo para o envio é de 15 de novembro de 2025 a 15 de janeiro de 2026.

São aceitas submissões inéditas de artigos, resenhas, traduções e ensaios visuais.

As contribuições devem ser enviadas no site da revista e redigidas conforme as normas de submissão (acesse as diretrizes para autores).

 

Leia, a seguir, a proposta do dossiê temático.

O trabalho da ficção
Organizadoras: Mônica Zielinsky (UFRGS) e Paula Luersen (UFRGS).


“A imaginação não é apenas sagrada, é precisa; não é apenas feroz, é prática; humanos morrem todos os dias por falta dela.”

Diane di Prima


Em 13 de novembro de 2024, Francisco Wanderley Luiz dirigiu-se até a Praça dos Três Poderes em Brasília, em frente ao Supremo Tribunal Federal com o intuito de detonar uma sequência de bombas e ameaçar a estabilidade democrática brasileira. Durante a ação ele vestia a indumentária característica do personagem Coringa: um terno personalizado com naipes de cartas. Francisco morreu ao acionar um explosivo
próximo à cabeça.
Este é um exemplo trágico de como imagens e discursos surgidos no terreno da ficção vêm sendo publicamente conectados a ideários políticos contemporâneos, de modo a se tornarem instrumentos em favor de sua afirmação e circulação. Representantes da Extrema Direita “como Peter Thiel ou Elon Musk (...) extraem sua visão de mundo de quadrinhos da Marvel e filmes de ficção científica. É onde encontram o futuro com que sonham e as ferramentas que usam para interpretar a realidade”. (Miguel, 2025, [s.p.])
A relação com as imagens e com a ficção é historicamente atravessada pela força das paixões, noção que passa a se estabelecer, conforme Marie-José Mondzain (2017, p. 13), com o surgimento das primeiras religiões: “ora proibida, ora celebrada, de cada vez com igual violência, a imagem foi desde o início, uma questão passional”. Ao mesmo tempo que grupos políticos extremos se servem de criações ficcionais para
moldar e difundir suas visões de mundo, surgem mobilizações violentas em prol do cerceamento de produções que sejam enquadradas como pertencentes ao polo oposto. Assim, o que se depreende do cenário é que a circulação das imagens e da ficção atravessa um momento de redefinição social e política, não mais ligado somente à força de Estados autoritários, mas a atos desencadeados e levados a termo por grupos organizados da sociedade civil. A isso se deveu a onda de censura que varreu o circuito brasileiro a partir de 2018, com exposições interditadas em Porto Alegre, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Minas Gerais (De Paula, 2020).
Da censura algorítmica aos apagamentos da memória, das rotulações vazias às leituras redutoras, a onda em prol da instrumentalização parece ter se espalhado, esgotando o poder imaginativo e polissêmico das imagens e da ficção para considerá-las, inclusive, como motivadoras da violência reinante. Mondzain (2017) alerta para os perigos desse cenário: primeiramente porque estaríamos atribuindo às imagens o papel de sujeito, ainda que elas só possam ocupar, a rigor, nessas relações, o lugar de objeto; e porque passamos a acreditar que ao corrigir supostas agressões no mundo das visibilidades e das ficções estaríamos solucionando problemas, sem buscar por sua real discussão e resolução em um contexto mais amplo. Parece oportuno, assim, retornar às bases do estatuto da imagem e da ficção para reafirmar seus modos de
funcionamento. Para Rancière (2014, [s.p.]), a ficção teria o poder de construir um senso de realidade e, a partir dele, fundar novas possibilidades de relação entre “a aparência e a realidade, o visível e seu significado, o singular e o comum”. Ao contrário de ser uma propagadora de mensagens, as ficções agiriam no sentido de romper a esfera do que já está dado, justapondo diferentes regimes de sensibilidade. O escritor sul-africano J. M. Coetzee (2016, p. 8) expande a questão, apontando que artistas e escritores encaram em seu fazer criativo “em parte um problema de refletir o mundo acuradamente, mas também, em parte, um problema de coerência interna (...), de satisfazer critérios estéticos autônomos”.
Quem sabe o campo ficcional seja um dos únicos lugares que temos para elaborar socialmente e no limite questões controversas como a violência, a morte, a sexualidade, o erotismo, comumente associados à esfera do particular. É preocupante que tenhamos tantas movimentações em favor de pressionar a produção em direção à arena do comum, conformando-a a uma espécie de aceitabilidade por grupos sociais diversos, ao invés de negociar com a ambivalência, a ambiguidade e o contraditório como parte do jogo ficcional. Diante de um contexto que instrumentaliza e desconfia do poder das imagens e da ficção, este dossiê convida autores a trazerem argumentos e exemplos consoantes aos seguintes questionamentos: qual é o trabalho da ficção? A ficção precisa prestar contas com a verdade do mundo ou lhe interessaria, principalmente, a noção de verdade poética? De que maneiras poderíamos encarar o ofício e o trabalho da ficção para além da instrumentalização corrente? Como preservar o espaço de pensamento no terreno da ficção e da arte para que imagens e discursos sigam seu trabalho de interrogação sem refluírem em condenações morais e leituras rasas?


Esta chamada aceitará trabalhos que versam sobre:
- Narrativa e ficcionalização;
- Criação e circulação de imagens da arte;
- O estatuto da imagem e da ficção;
- Noções de verdade poética e critérios estéticos autônomos;
- O poder polissêmico e ambivalente das imagens;
- Políticas da arte;
- Censuras algorítmicas;
- Apagamentos da memória;
- Instrumentalização das imagens;
- Limites entre o real e o ficcional.


Referências
COETZEE, J. M.; KURTZ, Arabella. The Good Story: Exchanges on truth, fiction and psicotherapy. Penguin Books: New York, 2016.
DE PAULA, Leandro. Banalizou à nível Brasil: o cerco às artes e o declínio da experiência desinteressada. In: AZIZE, Rafael. Em defesa das humanidades, 2020.
DI PRIMA, Diane. Memórias de uma beatnick. Tradução de Ludimila Hashimoto. São Paulo: Veneta, 2013.
MIGUEL, Luís Felipe. O bilionário e a Anticrista. Disponível em: <https://lfmiguel.substack.com/p/o-bilionario-e-a-anticrista?utm_source=post-emailtitle&publication_id=3732832&post_id=167256741&utm_campaign=email-posttitle&isFreemail=false&r=yyko&triedRedirect=true&utm_medium=email>. Acessado em 08 set. 2025.
MONDZAIN, Marie-José. A imagem pode matar? Tradução de Suzana Mouzinho. Lisboa: Veja, 2009.
RANCIÈRE, Jacques. O espectador emancipado. Tradução José Miranda Justo. Lisboa: Orfeu Negro, 2010.
RANCIÈRE, Jacques. Política da arte. Tradução de Aurora Baêta. Território de Filosofia, 2014. Disponível em: https://territoriosdefilosofia.wordpress.com/2014/05/30/politicadaarte-jacques-ranciere/. Acessado em: 08 set. 2025.

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