Revista Philia abre seleção para bolsista
2026-07-16

2026-07-16
2026-01-13
A Revista PHILIA | Filosofia, Literatura & Arte anuncia prorrogação da chamada para contribuições ao dossiê temático "O trabalho da ficção", organizado por Mônica Zielinsky (UFRGS) e Paula Luersen (UFRGS).
O prazo para o envio dessa chamada amplia-se até 28 de devereiro de 2026.
As contribuições devem ser enviadas no site da revista e redigidas conforme as normas de submissão (acesse as diretrizes para autores).
Já as submissões de temática livre podem ser enviadas até 15 de janeiro de 2026.
2025-11-12
A Revista PHILIA | Filosofia, Literatura & Arte abre nova chamada para submissões, recebendo contribuições de temática livre ou que componham o dossiê temático "O trabalho da ficção".
O prazo para o envio é de 15 de novembro de 2025 a 15 de janeiro de 2026.
São aceitas submissões inéditas de artigos, resenhas, traduções e ensaios visuais.
As contribuições devem ser enviadas no site da revista e redigidas conforme as normas de submissão (acesse as diretrizes para autores).
Leia, a seguir, a proposta do dossiê temático.
O trabalho da ficção
Organizadoras: Mônica Zielinsky (UFRGS) e Paula Luersen (UFRGS).
“A imaginação não é apenas sagrada, é precisa; não é apenas feroz, é prática; humanos morrem todos os dias por falta dela.”
Diane di Prima
Em 13 de novembro de 2024, Francisco Wanderley Luiz dirigiu-se até a Praça dos Três Poderes em Brasília, em frente ao Supremo Tribunal Federal com o intuito de detonar uma sequência de bombas e ameaçar a estabilidade democrática brasileira. Durante a ação ele vestia a indumentária característica do personagem Coringa: um terno personalizado com naipes de cartas. Francisco morreu ao acionar um explosivo
próximo à cabeça.
Este é um exemplo trágico de como imagens e discursos surgidos no terreno da ficção vêm sendo publicamente conectados a ideários políticos contemporâneos, de modo a se tornarem instrumentos em favor de sua afirmação e circulação. Representantes da Extrema Direita “como Peter Thiel ou Elon Musk (...) extraem sua visão de mundo de quadrinhos da Marvel e filmes de ficção científica. É onde encontram o futuro com que sonham e as ferramentas que usam para interpretar a realidade”. (Miguel, 2025, [s.p.])
A relação com as imagens e com a ficção é historicamente atravessada pela força das paixões, noção que passa a se estabelecer, conforme Marie-José Mondzain (2017, p. 13), com o surgimento das primeiras religiões: “ora proibida, ora celebrada, de cada vez com igual violência, a imagem foi desde o início, uma questão passional”. Ao mesmo tempo que grupos políticos extremos se servem de criações ficcionais para
moldar e difundir suas visões de mundo, surgem mobilizações violentas em prol do cerceamento de produções que sejam enquadradas como pertencentes ao polo oposto. Assim, o que se depreende do cenário é que a circulação das imagens e da ficção atravessa um momento de redefinição social e política, não mais ligado somente à força de Estados autoritários, mas a atos desencadeados e levados a termo por grupos organizados da sociedade civil. A isso se deveu a onda de censura que varreu o circuito brasileiro a partir de 2018, com exposições interditadas em Porto Alegre, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Minas Gerais (De Paula, 2020).
Da censura algorítmica aos apagamentos da memória, das rotulações vazias às leituras redutoras, a onda em prol da instrumentalização parece ter se espalhado, esgotando o poder imaginativo e polissêmico das imagens e da ficção para considerá-las, inclusive, como motivadoras da violência reinante. Mondzain (2017) alerta para os perigos desse cenário: primeiramente porque estaríamos atribuindo às imagens o papel de sujeito, ainda que elas só possam ocupar, a rigor, nessas relações, o lugar de objeto; e porque passamos a acreditar que ao corrigir supostas agressões no mundo das visibilidades e das ficções estaríamos solucionando problemas, sem buscar por sua real discussão e resolução em um contexto mais amplo. Parece oportuno, assim, retornar às bases do estatuto da imagem e da ficção para reafirmar seus modos de
funcionamento. Para Rancière (2014, [s.p.]), a ficção teria o poder de construir um senso de realidade e, a partir dele, fundar novas possibilidades de relação entre “a aparência e a realidade, o visível e seu significado, o singular e o comum”. Ao contrário de ser uma propagadora de mensagens, as ficções agiriam no sentido de romper a esfera do que já está dado, justapondo diferentes regimes de sensibilidade. O escritor sul-africano J. M. Coetzee (2016, p. 8) expande a questão, apontando que artistas e escritores encaram em seu fazer criativo “em parte um problema de refletir o mundo acuradamente, mas também, em parte, um problema de coerência interna (...), de satisfazer critérios estéticos autônomos”.
Quem sabe o campo ficcional seja um dos únicos lugares que temos para elaborar socialmente e no limite questões controversas como a violência, a morte, a sexualidade, o erotismo, comumente associados à esfera do particular. É preocupante que tenhamos tantas movimentações em favor de pressionar a produção em direção à arena do comum, conformando-a a uma espécie de aceitabilidade por grupos sociais diversos, ao invés de negociar com a ambivalência, a ambiguidade e o contraditório como parte do jogo ficcional. Diante de um contexto que instrumentaliza e desconfia do poder das imagens e da ficção, este dossiê convida autores a trazerem argumentos e exemplos consoantes aos seguintes questionamentos: qual é o trabalho da ficção? A ficção precisa prestar contas com a verdade do mundo ou lhe interessaria, principalmente, a noção de verdade poética? De que maneiras poderíamos encarar o ofício e o trabalho da ficção para além da instrumentalização corrente? Como preservar o espaço de pensamento no terreno da ficção e da arte para que imagens e discursos sigam seu trabalho de interrogação sem refluírem em condenações morais e leituras rasas?
Esta chamada aceitará trabalhos que versam sobre:
- Narrativa e ficcionalização;
- Criação e circulação de imagens da arte;
- O estatuto da imagem e da ficção;
- Noções de verdade poética e critérios estéticos autônomos;
- O poder polissêmico e ambivalente das imagens;
- Políticas da arte;
- Censuras algorítmicas;
- Apagamentos da memória;
- Instrumentalização das imagens;
- Limites entre o real e o ficcional.
Referências
COETZEE, J. M.; KURTZ, Arabella. The Good Story: Exchanges on truth, fiction and psicotherapy. Penguin Books: New York, 2016.
DE PAULA, Leandro. Banalizou à nível Brasil: o cerco às artes e o declínio da experiência desinteressada. In: AZIZE, Rafael. Em defesa das humanidades, 2020.
DI PRIMA, Diane. Memórias de uma beatnick. Tradução de Ludimila Hashimoto. São Paulo: Veneta, 2013.
MIGUEL, Luís Felipe. O bilionário e a Anticrista. Disponível em: <https://lfmiguel.substack.com/p/o-bilionario-e-a-anticrista?utm_source=post-emailtitle&publication_id=3732832&post_id=167256741&utm_campaign=email-posttitle&isFreemail=false&r=yyko&triedRedirect=true&utm_medium=email>. Acessado em 08 set. 2025.
MONDZAIN, Marie-José. A imagem pode matar? Tradução de Suzana Mouzinho. Lisboa: Veja, 2009.
RANCIÈRE, Jacques. O espectador emancipado. Tradução José Miranda Justo. Lisboa: Orfeu Negro, 2010.
RANCIÈRE, Jacques. Política da arte. Tradução de Aurora Baêta. Território de Filosofia, 2014. Disponível em: https://territoriosdefilosofia.wordpress.com/2014/05/30/politicadaarte-jacques-ranciere/. Acessado em: 08 set. 2025.