CALÇAS PARA EXISTIR
VESTIR, DESPIR E DISPUTAR A PRESENÇA EM A COR PÚRPURA E “OS AMORES DE KIMBÁ”
DOI:
https://doi.org/10.22456/2238-8915.157169Resumo
Este artigo investiga como o vestuário participa da construção literária de corpos negros atravessados por gênero, sexualidade, classe e desejo em A cor púrpura, de Alice Walker, e “Os amores de Kimbá”, de Conceição Evaristo. Por meio de leitura qualitativa, comparativa e cerrada, examina cenas de vestir, despir, lavar, cortar, costurar, fabricar e trocar de roupa como procedimentos narrativos que interferem na caracterização, temporalidade e possibilidades de ação. A comparação aproxima, sem apagar diferenças históricas e formais, um romance epistolar situado no sul dos Estados Unidos ao longo de décadas e um conto brasileiro condensado e circular. Com Barthes, Eco, Gilda de Mello e Souza e Tulloch, distingue roupa, vestuário, moda e estilo; com Butler, hooks e Johnson, discute reconhecimento, desejo e normas. “Corpos ausentes” designa corpos socialmente presentes, mas reconhecidos de modo parcial e condicional, privados do direito pleno à autodefinição e à continuidade. A análise mostra que as calças de Celie e a nudez de Kimbá não constituem símbolos fixos de libertação e derrota: tecido e pele produzem presenças contraditórias, nas quais criação, prazer, vulnerabilidade, trabalho e risco permanecem entrelaçados.
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