VESTIR A ESCREVIVÊNCIA
CORPO, MODA E DECOLONIALIDADE NA FICÇÃO DE CONCEIÇÃO EVARISTO
DOI:
https://doi.org/10.22456/2238-8915.156997Resumo
Este artigo investiga as relações entre moda, corpo e decolonialidade na ficção de Conceição Evaristo, tomando como corpus as obras Becos da Memória (2013 [2006]) e Olhos d'Água (2014). Parte-se da premissa de que o vestir, compreendido como sistema de significação, não apenas veste o corpo, mas o inscreve em relações de poder historicamente construídas pela colonialidade. Na escrevivência evaristiana, o corpo negro feminino aparece como território de memória e de resistência, no qual a indumentária opera simultaneamente como marca de subalternização e como gesto de reinvenção identitária. Por meio de leitura interpretativa dos textos literários, articulada aos estudos decoloniais, aos estudos de gênero e aos estudos de moda e literatura, o artigo demonstra como as personagens de Evaristo ficcionam identidades a partir de escolhas estéticas que subvertem os padrões eurocêntricos de vestir historicamente associados à hierarquia entre moda e indumentária. Discute-se, ainda, como o olhar e a performatividade de gênero atuam na construção dessas personagens, deslocando o campo dos estudos de moda e literatura, tradicionalmente centrado no romance oitocentista, para a produção afro-brasileira contemporânea. Conclui-se que a moda, nessa literatura, funciona como dispositivo performativo de subjetivação, capaz de tensionar as fronteiras entre objetividade e subjetivação dos corpos representados, contribuindo para uma cartografia decolonial da moda na literatura brasileira.
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