DRAMATURGIA INDÍGENA NA REGIÃO DO CARIRI CEARENSE
UMA ANÁLISE DIALÓGICA DA OBRA CARCARÁ
DOI:
https://doi.org/10.22456/2238-8915.153680Resumo
Este estudo objetivou analisar as relações dialógicas construídas na obra de dramaturgia indígena Carcará (2023), de Bárbara Matias Kariri, sob a perspectiva do dialogismo bakhtiniano. A pesquisa, de cunho bibliográfico e analítico, identificou cinco mecanismos enunciativos principais. Primeiro, a peça refuncionaliza a canção homônima de João do Vale e José Cândido (1965), deslocando a ave-símbolo do masculino para o feminino e da terceira para a primeira pessoa. Segundo, incorpora discursos relatados das ancestrais (avó e mãe), criando uma bivocalidade que tensiona o silenciamento histórico das mulheres e o combate ao "memoricídio". Terceiro, a capa e os grafismos funcionam como enunciados visuais que subvertem a tradição colonial ao integrar som e imagem. Quarto, o cronotopo da feira e a partilha material com o público (saquinhos de rapadura) rompem a hierarquia cena-plateia. Quinto, o texto dialoga com acontecimentos políticos (impeachment de Dilma, governo Bolsonaro e feminicídio) por meio da antítese pátria/mátria. Conclui-se que a dramaturgia, em Carcará, não representa apenas a resistência, mas a performatiza no ato enunciativo, reivindicando memória e equidade contra violências estruturais.
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