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Chamada aberta: convocatória até 30/10 para o dossiê Arte e trabalho
Porto Arte, vol. 30, n. 54 (2026)
Uma urgência que se coloca hoje é refletir sobre a posição do artista no processo produtivo, ou seja, pensarmos se o artista é um trabalhador: qual a natureza e o valor do trabalho que realiza? O que nos conduz para problematizações sobre as contradições, estereótipos, especificidades e limites de se pensar a relação arte-trabalho nas artes visuais, um campo que se recusa a se situar como lugar produtivo. É justamente por não se situar como um campo regido pelas leis do trabalho, que é possível ao campo das artes visuais ser regido por uma lógica extrativista e praticar todo tipo de abuso, de injustiça e de irresponsabilidade, ou como diria Hito Steyerl, se sustentar em trabalhos não remunerados, na autoexploração e precarização de atores em praticamente todos os níveis e funções (Steyerl, 2010). E é também porque o artista não é situado, ou não se percebe como trabalhador, que fica tão difícil demonstrar a exploração e a apropriação de valor (a mais-valia) praticado por galerias, colecionadores, instituições e o mercado em geral. Em uma economia do capital improdutivo, conforme Ladislau Dowbor (2017), em que simultaneamente emergem diversas perspectivas sobre o lugar da cultura e da arte na economia, ao ponto de Gilles Lipovetsky e Jean Serroy (2015) proporem um “capitalismo artista”, enquanto conceitos como empreendedorismo, disrupção, inovação, financeirização, plataformização entre outros tornam-se novos dogmas do capital, seria possível situar o trabalho do artista como uma força produtiva? Defendemos que sim. No entanto, sabemos que o trabalho do artista se configura como um trabalho relativamente livre (Ferro, 2015), isto é, uma forma de trabalho que se situa na exceção, uma vez que não está subordinado aos meios de produção do Capital, não podendo ser pensada como uma força produtiva de acordo com a lei comum do mercado, mas de acordo com o sistema monopólico sustentado pelo sistema da arte, especificidade que se desencadeia uma mudança decisiva na idéia de produção, bem como na noção de trabalho. Nestas circunstâncias, quais seriam as condições de existência do artista e seu papel como trabalhador contemporâneo na atual fase capitalista? Como os processos de pejotização, precarização, uberização do trabalho atravessam os diversos trabalhadores deste ecossistema? Como a ideia de profissionalização perpassa suas atuações? O trabalho do artista, curador, historiador, teórico, crítico é realmente trabalho livre? Uma atividade autodeterminada? Um trabalho emancipado? Pode operar como uma força potencial de tensionamento e contraposição diante da lógica produtivista, do autoempreendedorismo e da cultura de celebridade vigentes na contemporaneidade? De que maneiras essa condição de artista-trabalhador pode ser tema ou motivação para a criação artística?
Aguardamos artigos, entrevistas, traduções, ensaios visuais e resenhas de livros que contemplem os atravessamentos entre arte e trabalho a partir da atual fase capitalista. Formatos e regras de submissão estão disponíveis em:
https://seer.ufrgs.br/index.php/PortoArte/about/submissions
O material para o vol. 30, n. 54 da Porto Arte deve ser submetido até 30 de outubro de 2026. Deve constar no título do documento ou logo no início do texto que se trata de submissão para o dossiê Arte e trabalho.
O lançamento está previsto para dezembro de 2026.
Proponentes:
Profª. Dr ª. Fabrícia Jordão (UFPR e PPGAV-UNESPAR)
Prof. Dr. Felipe Bernardes Caldas (FURG e PPGAV-UFRGS)