O direito nos bosques da ficção
caminhos e descaminhos da narrativa jurídica
Resumo
Este artigo procura deslocar a metáfora dos bosques de Umberto Eco para o processo judicial, compreendendo-o como texto institucional que organiza trilhas de sentido e fabrica um leitor-modelo. Defende-se que o procedimento não apenas recolhe narrativas sociais: ele as reconverte em gênero processual, selecionando fatos, reordenando temporalidades e distribuindo credibilidade por critérios de pertinência e prova. O foco recai sobre a cultura da celeridade e seus custos hermenêuticos: a pressa comprime linguagem e tempo, naturaliza elipses argumentativas, padronizações decisórias e encurtamentos da instrução e altera o que pode ser narrado, provado e contraditado. Assim, desigualdades aparecem como desigualdades de leitura e de acesso às convenções do gênero. A análise mobiliza leitor-modelo, lacunas e horizontes de expectativa, além de categorias narratológicas do tempo e da voz. Conclui-se que garantias processuais incluem garantias de legibilidade pública efetiva como condição de participação.
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