Nascidos na beira do trilho: um estudo antropológico na Vila dos Ferroviários - Porto Alegre
DOI:
https://doi.org/10.22456/1984-1191.9131Resumo
No quadro brasileiro de geopolíticas da década de 1860, as estradas de ferro apareciam como sistema de transporte estratégico ao Império do Brasil. Em função de suas construções grandes investimentos seriam dirigidos, concessões seriam feitas ao capital e empresas estrangeiras, e ao capital privado o Estado garantiria lucros. Já no início do século seguinte, o mapa do Rio Grande do Sul havia sido riscado, de um lado ao outro, por linhas que se cruzavam. As estradas de ferro, duas linhas de aço paralelas a um metro, passaram a fazer parte do novo cenário, e possibilitariam, à industrialização do século XX, modificar ainda mais esse cenário em plena transformação. Ao longo do seu percurso, essas estradas rasgaram paisagens, cruzaram rios, abr iram brechas nas matas.
Por onde passaram, estas estradas criaram vilarejos, estruturaram povoados, enriqueceram cidades. Já quando das suas construções, as estradas de ferro requisitaram engenharia sofisticada, mão-de-obra especializada, e uma grande força braçal. Para a manutenção das linhas, seriam ainda organizados grupos operários: trabalhadores locais seriam treinados, iniciados em uma nova atividade. Tão logo o mundo da ferrovia estivesse formado, requisitaria a disponibilidade integral de seus operários. Mais que o excesso da produção, a ferrovia tomaria para si a vida familiar e social dos seus operários. Em torno do trabalho na ferrovia, “famílias foram enraizadas e comunidades de trabalho fundadas”. Dentro do mundo da ferrovia os operários conceberiam seus planos familiares, suas aspirações, construiriam suas culturas.
Na atualidade, as organizações sociais criadas pelas ferrovias têm conhecido a decadência do sistema. Com a implantação da política do ouro negro, onde as rodovias asfaltadas constituem-se predominantemente como símbolo de desenvolvimento, somado ao processo de privatização das estradas de ferro, o mundo singular do trabalho na ferrovia conhece um retrocesso. “A máquina do progresso passa por cima de tudo”2, e desordena culturas fundamentadas no sistema ferroviário. Na conjuntura atual, desapareceu o trabalho tradicional das comunidades operárias, restando, aos que não conseguiram tempo de aposentadoria, o desemprego. A realidade das vilas operárias é hoje o fim das características de local fechado e definido pelo trabalho na ferrovia. Às famílias, que ainda lutam pela propriedade das casas, restou a buscar por novos horizontes de trabalho.
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