TRANSFERÊNCIA INSTITUCIONAL, BRANQUITUDE E LIMITES DA CONSTRUÇÃO NA CLÍNICA PSICANALÍTICA: uma crítica à recusabilidade abstrata na psicanálise de margem
Keywords:
Psicanálise Periphérica, presença-quilombo, branquitude, trauma destruinte, recusabilidade materialAbstract
Este artigo apresenta uma pesquisa qualitativa de base empírica e orientada pela prática, com delineamento de estudo clínico psicanalítico de casos múltiplos. O objetivo é examinar os limites da distinção entre interpretar, construir e recusar quando a decisão clínica ocorre diante de sujeitos negros, periféricos e dissidentes da norma de gênero. O corpus reúne três casos paradigmáticos, selecionados por sua relevância transferencial e pela irrupção de acontecimentos que tensionaram os recursos de simbolização, provenientes de atendimentos nas margens e de aproximadamente dois anos de supervisões coletivas semanais do Dispositivo de Escuta Periphérica Xica Manicongo, com participação, ao longo do período, de cerca de quarenta analistas. O material foi reconstruído retrospectivamente a partir de relatórios clínicos, discussão coletiva e formalização de vinhetas densamente desidentificadas. A análise articula leitura crítica imanente, inflexão contracolonial e exame institucional da transferência. Para evitar inflação conceitual, o argumento concentra-se em três operadores: recusabilidade material, presença-quilombo e trauma destruinte. Sustenta-se que a recusa só adquire consistência ética quando pode ocorrer sem punição vincular ou institucional; que a nomeação racial pode funcionar como recurso de sustentação e recomposição, sem ser automaticamente patologizada; e que o trauma destruinte deve ser formulado como hipótese clínico-metodológica situada sobre regimes contínuos de traumatização, não como diagnóstico ou essência racial. As conclusões têm alcance analítico e exploratório: não avaliam eficácia, não representam a totalidade das instituições psicanalíticas e não autorizam generalização para outros territórios sem investigação específica.
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