VIRILIDADE E MASCULINISMO RELIGIOSO CONTEMPORÂNEO: a produção da virilidade e seus impactos sobre corpos dissidentes em Machonaria e Legendários
Schlagworte:
masculinismo religioso, virilidade, violência de gênero, psicanálise, masculinidadeAbstract
Este artigo propõe uma análise crítica das articulações entre masculinismo religioso, o ideal viril e a violência contra corpos LGBTI no Brasil contemporâneo, tomando como casos exemplares os movimentos Legendários e Machonaria. A partir de uma abordagem interdisciplinar que integra psicanálise, teoria de gênero, crítica decolonial e análise documental, analisa-se como discursos teológicos, dispositivos pastorais e tecnologias digitais se entrelaçam para reforçar normas de gênero hierárquicas, sustentar a supremacia masculina e legitimar violências simbólicas e materiais sobre dissidências de gênero e sexualidade. Argumenta-se que a virilidade — compreendida como defesa psíquica e performance normativa do gozo (jouissance) — é atravessada por processos históricos que vão da colonialidade cristã-patriarcal à contemporaneidade digital, articulando-se tanto em estratégias fundamentalistas de controle quanto em reações subjetivas de sofrimento, culpa e resistência. Ao mobilizar conceitos como masculinidade hegemônica (Connell), performatividade de gênero (Butler) e dispositivo pastoral (Foucault), o estudo evidencia a emergência de ambiências digitais de reafirmação viril, bem como a função clínica e política do deslocamento das identificações normativas, por meio da abertura ao fracasso do ideal viril e ao desejo singular. Por fim, sustenta-se a urgência de desconstruir narrativas religiosas de exclusão, promovendo uma ética de escuta capaz de produzir novos arranjos simbólicos e clínicos para práticas de cuidado e para a reinvenção de masculinidades possíveis.
Downloads
Literaturhinweise
ALCÂNTARA, S. Segregação digital: ensaio psicanalítico sobre os efeitos do atual estado na internet no sujeito e no laço social. Curitiba: Appris, 2025.
AMBRA, P. E. S. O que é um homem? São Paulo: Zagodoni, 2021.
BEAUVOIR, S. de. O segundo sexo: v. 2. Experiência vivida. Tradução de Sergio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2020.
BONFIM, F. S. Tornar-se homem: ressonâncias do declínio do ideal viril na sexuação. São Paulo: Dialética, 2022.
BOURDIEU, P. A dominação masculina revisitada. In: LINS, Daniel (org.). A dominação masculina revisitada. Campinas: Papirus, 1998.
BUTLER, J. Corpos que importam: os limites discursivos do “sexo”. São Paulo: n-1 edições, 2023.
BUTLER, J. Problemas de gênero: feminismo e a subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
BUTLER, J. Quem tem medo de gênero? São Paulo: Boitempo, 2024.
CONNELL, R. W. Gênero em termos reais. São Paulo: nVersos, 2016.
CONNELL, R. W. Masculinities. Berkeley: University of California Press, 1995.
CONNELL, R. W.; MESSERSCHMIDT, J. W. Hegemonic masculinity: rethinking the concept. Gender & Society, v. 19, n. 6, p. 829-859, 2005.
FOUCAULT, M. História da sexualidade I: a vontade de saber. 4. ed. São Paulo: Paz & Terra, 2021.
FREUD, S. O futuro de uma ilusão (1927). In: FREUD, S. Cultura, sociedade e religião: o mal-estar na cultura e outros escritos. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2020. p. 233-297.
GALEANO, E. As veias abertas da América Latina. 36. ed. Porto Alegre: L&PM, 2010.
GRUPO GAY DA BAHIA. Observatório da Violência. 2024. Disponível em: https://www.grupogaydabahia.com.br. Acesso em: 29 jan. 2025.
LACAN, J. O triunfo da religião. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
LIMA, V. F. Homens em análise: travessias da virilidade. São Paulo: Blucher, 2024.
NANTES, F. A. Diálogos TRANSversais: a Travesti quer um beijo: entrevista com Letícia Carolina Nascimento. Rascunhos Culturais, v. 12, n. 24, p. 11-38, 2021.
PRECIADO, P. B. Manifesto contrassexual: práticas subversivas de identidade sexual. Rio de Janeiro: Zahar, 2022.
ROLNIK, S. Esferas da insurreição: notas para uma vida não cafetinada. São Paulo: n-1 edições, 2018.
SPIVAK, G. C. Pode o subalterno falar? Tradução de S. Chakravorty. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.


