A tradução, enquanto prática literária e reflexão crítica, é tema recorrente nas obras de Yoko Tawada e de Jorge Luis Borges. Com este artigo, objetiva-se traçar um paralelo entre conceitos desses dois autores, cujas produções ficcionais incorporam e tensionam concepções teóricas acerca da língua, da autoria e da originalidade, tendo-se em vista o fato de que partem de contextos históricos e culturais bastante distintos: Tawada, escritora nipo-germânica, apresenta sua narrativa em 2004, em uma conferência em San Diego, e Borges, escritor argentino, publica seu conto na Argentina da década de 1940. Os autores desenvolvem, cada um à sua maneira, uma abordagem em que a escrita literária e a tradução se apresentam como práticas indissociáveis, funcionando como ponto de partida para reflexões estéticas e teóricas. Ambos situam a tradução em uma perspectiva crítica que evidencia como as posições políticas e hierárquicas dos envolvidos no circuito de leitura e escritura moldam tanto a abordagem quanto o discurso utilizado para estabelecer distinções entre o texto original e o texto traduzido. Para abordar as reflexões que Tawada e Borges articulam em torno da tradução, este artigo analisa as narrativas “Tawada Yoko não existe” (2017), de Tawada, e “A biblioteca de Babel” (1974)[1944], de Borges, com fundamentação teórica constituída sobretudo em ensaios críticos assinados pelos próprios autores. Inicialmente apresenta-se brevemente as concepções de literatura e tradução em Tawada e em Borges, de modo a contextualizar sua aplicação nas narrativas selecionadas. Em seguida, as obras serão analisadas com atenção à forma como os conceitos discutidos se manifestam na ficção. A distância das circunstâncias históricas e culturais em que escrevem contribui para evidenciar o alcance universal e a permanente atualidade das questões ligadas à tradução, especialmente quando observadas a partir de perspectivas não-hegemônicas. Embora abordem o tema por caminhos diversos, os dois autores convergem em pontos fundamentais, como a crítica à noção de originalidade dos textos e a problematização da figura do autor, aspectos que estarão no centro da análise aqui proposta. A partir disso, evidenciam-se alguns dos preceitos fundamentais da criação literária e da tradução, explorando como imagens ficcionais podem funcionar como veículos de crítica e de teoria.