Na teoria de ficção científica há uma ampla discussão sobre qual teria sido o início do gênero. Sendo a teoria predominantemente anglófona, é comum que ela se concentre neste recorte. Apesar das frequentes menções a Luciano de Samosata e Jules Verne, incluindo ocasionais menções ao alemão Kurd Laßwitz, praticamente não há discussões sobre o desenvolvimento autônomo e concomitante do gênero que ocorreu em outros países, impulsionado pela Revolução Industrial. Por esta razão, é incomum que se tome conhecimento do fato de que a Alemanha teve um desenvolvimento próprio do gênero na primeira metade do século XX, sob o nome de Zukunftsroman. Em alemão, há apenas dois estudos amplos, Der deutsche Zukunftsroman 1918-1945 (2007), de Dina Brandt, e, Science-fiction in der deutschsprachigen Literatur (1995), de Hans-Edwin Friedrich, sendo que apenas o primeiro se debruça profundamente sobre o Zukunftsroman. Este artigo se propõe a apresentar características básicas do Zukunftsroman para o público brasileiro. Além disso, discute a transição do Zukunftsroman à ficção científica, que ocorreu no pós-guerra, momento no qual não apenas se decide por uma nova nomenclatura, mas também ocorre um efeito de distanciamento da produção nacional prévia e um suposto redirecionamento da escrita e das temáticas abordadas, com a busca por padrões estadunidenses. Um caso exemplar é a revista de ficção científica Perry Rhodan, lançada no ano de 1961 e produzida até os dias atuais, que tem um major dos EUA como principal herói. Assim como o ido Zukunftsroman, Perry Rhodan é literatura trivial, sem maiores cuidados com escrita e estilo, e se diferencia especialmente no que diz respeito à abordagem de temáticas sócio-políticas. A expectativa, tendo em vista a mudança de nomenclatura do gênero e distanciamento da produção nacional, é que, no pós-guerra, as narrativas tenham se tornado mais progressivas. A análise exemplar da edição O planeta louco (1962), contudo, mostra que uma atualização política está presente, mas velhos preconceitos raciais persistem, assim como um posicionamento político marcadamente militarista e conservador.