A literatura pós-ditatorial, muitas vezes mobilizando a estratégia da autoficção, busca uma pluralidade discursiva capaz de criar subjetividades. O romance A resistência, de Julián Fuks, regido pelo signo da desconfiança e da hesitação, propõe significados abertos, contrapondo-se à narrativa única do regime ditatorial e abrindo espaço para a elaboração de outras identidades. Este artigo investiga como a obra forja a subjetividade do autor-narrador, procurando mostrar que, ao tecer e destecer a narrativa, suspende o fluxo representativo e cria um discurso sobretudo reflexivo e indagativo. Essa operação de subjetivação aproxima-se daquela agenciada na forma ensaística, fundamental para a abertura e o devir da obra. Convocamos, para essa análise, o aporte teórico de Costa Lima (2005) a propósito da invenção do eu ensaístico; de Adorno (2012) sobre o método sinuoso do ensaio, além dos estudos de Diana Klinger (2006, 2008) sobre as estratégias autoficcionais. Verificamos que A resistência, agenciando métodos desviantes como os da forma-ensaio, forja um processo de subjetivação que se torna central para assinalar a estratégia autoficcional, que é a invenção e encenação de um eu sustentadas, principalmente, na reflexão meditativa sobre o relato, inclusive sobre o gesto escritural.