Ordens, práticas e fluxos na constituição das sementes crioulas: apontamentos a partir do tecido mundo da Rede de Intercâmbio de Sementes (RIS) na região de Sobral-CE

Helena Rodrigues Lopes, Claudia Job Schmitt, José Maria Vasconcelos

Resumo


Este artigo procura organizar uma reflexão em torno das ordens, práticas e fluxos que possibilitam a emergência material e discursiva das sementes crioulas, buscando captar as disputas políticas que atravessam a ontologia destes materiais e dos mundos que eles fazem existir. O estudo tem como referência o universo de atuação da Rede de Intercâmbio de Sementes (RIS), estado do Ceará, particularmente na região de Sobral. A RIS constitui-se como uma rede de organizações com presença em nível estadual e que conta com a participação de camponeses(as), quilombolas, assentados(as) da reforma agrária, técnicos(as), entre outros atores, trabalhando de forma conjunta na preservação e multiplicação de sementes crioulas, implantação de roçados agroecológicos e na estruturação de casas e feiras de sementes. Tendo por base um conjunto de observações de caráter etnográfico, o trabalho estabelece um diálogo com a teoria das práticas, a abordagem antropológica proposta por Ingold, a teoria do ator-rede e abordagens pragmatistas acerca da construção dos problemas públicos. Os resultados reforçam a ideia de que as sementes crioulas são resultado, tanto do seu enraizamento no tecido mundo da RIS, como de um processo político de constituição das sementes crioulas como um ente público capaz de potencializar novos campos de experiências.


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