Múltiplas vibrações e formas de experiênciar a velhice e o processo de envelhecimento na sociedade complexa
Resumo
Este ensaio acompanha a narrativa imagética construída graças à pesquisa “Etnografia da duração sobre o processo de envelhecimento e a vivência da velhice em Inca de Oro, Chile”, na qual estudei o processo do envelhecimento e a vivência da velhice no contexto da sociedade complexa atual.
O aumento da esperança de vida e, em consequência, a maior quantidade de pessoas que conseguem uma longevidade em nossa sociedade; a criação de um sujeito que merece a atenção e a elaboração de políticas públicas e a definição de uma disciplina específica para seu estudo ― a Gerontologia ― tornam o envelhecimento e a velhice, parte de um fenômeno contemporâneo sem precedentes na história da humanidade. Durante o século XX, a população mundial alcançou etapas muito avançadas de vida, situação compartilhada pelo Chile. Assim envelhecer constituiu-se uma problemática que requer novas formas de compreensão e de intervenção.
Nesse contexto, evidenciou-se para mim a necessidade de lançar um olhar que permitisse sair da presunção da existência de uma única forma de viver a velhice ou de envelhecer e que permitisse abrir espaço às diferentes formas de os experienciar na sociedade atual.
Nesse intuito, desenvolvi a pesquisa em Inca de Oro, um pequeno povoado minerador, localizado na terceira região de Atacama, no norte do Chile, dentre do deserto mais árido do mundo. Administrativamente, Inca de Oro, pertence à prefeitura de Diego de Almagro. Está situado a 110 quilômetros da cidade e capital regional Copiapó, e a 40 quilômetros da cidade Diego de Almagro.
Nesse contexto, devemos considerar que o processo de envelhecer é um processo sempre diversificado, e que envelhecer em uma pequena cidade como Inca de Oro agrega-lhe particularidades próprias que surgem, mantêm-se e enquadram-se sob o abrigo da estrutura social do povoado, por ser um vilarejo marcado pela atividade mineradora de exploração de ouro, a pirquineria. Assim, as especificidades dessa pequena cidade se vinculam tanto à forma com que os idosos e as idosas vivenciam o processo, quanto na forma de organização do povoado, dos espaços e dos tempos praticados e vividos. A pesquisa também mostra o modo com que ― dentro dos limites sociais aceitos e das normatividades de gênero e idade imperantes no povoado ― os idosos e as idosas negociam suas realidades, dramas, conflitos e afetos, servindo-se de diferentes agenciamentos em sua vida cotidiana. Nesse sentido, esta pesquisa se debruça sobre o processo de envelhecimento e a vivência da velhice em Inca de Oro.
No intuito da etnografia da duração realizada e para compreender o tempo narrado no processo de envelhecimento e a vivência observada, escutada, fotografada, da velhice, foi preciso dar importância também às questões do corpo, pois é nele que essa passagem do tempo se palpa. Graças à etnografia realizada percebi que para dizer algo sobre o envelhecimento e a velhice deve-se prestar atenção ao corpo e as suas transformações ao longo do tempo, suas marcas, suas metamorfoses, evitando uma perspectiva que olhe para esse corpo a partir da deterioração ou que o trate como mero objeto afetado pelo agir do tempo.
No contexto da etnografia da duração, servi-me de fotografias, as quais foram utilizadas tanto como um aliado ao caderno de campo, em uma tentativa de dar conta do que não se conseguiu expressar por meio de palavras, da escrita ou das descrições: o deserto, o céu, a terra, as árvores, as construções velhas e as construções abandonadas do vilarejo.
Porém, também as imagens se apresentaram não apenas como objetos, mas também como memória, questionamentos e visões. Tendo como pano de fundo essas reflexões, cogitei realizar oficinas com as fotografias tiradas durante o campo, tanto de forma individual quanto coletiva. Esse trabalho me ajudou a adentrar em temas que não havia atingido por meio das falas e entrevistas, e abriu espaço para o imaginário dos interlocutores.
Desenvolver a pesquisa em Inca de Oro significou me importar pela pirquinería, quer dizer, a mineração tradicional praticada no povoado. Na Pirquinería as pessoas perambulam pelo território, neste caso o deserto, à procura de jazidas ou lugares onde explorar minérios preciosos. O pirquinero é construído como uma figura de homem forte, aguerrido, sem Deus nem lei, sem chefes, sem ataduras.
Através da narrativa imagética apresentada, expressa-se as vibrações se passando na forma de envelhecer e vivenciar a velhice em Inca de Oro. Dando conta de um estilo de vida específico, a pirquinería.
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Copyright (c) 2017 Pamela Francisca Jorquera Alvarez

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