Nossa contribuição visa a um estudo de relatos de testemunho sobre a repressão
política na República Democrática Alemã, publicados na obra Gefangen in Hohenschönhausen.
Stasi-Häftlinge berichten (2007; “Presos em Hohenschönhausen. Prisioneiros da Stasi relatam”),
organizada por Hubertus Knabe. Embora o subtítulo Stasi-Häftlinge berichten (“Prisioneiros da
Stasi relatam”) sinalize para o leitor de que estaríamos diante de relatos stricto sensu, a leitura
revela outro quadro, em que nos deparamos também com outros tipos textuais, não apenas
relatos, como diários ou mesmo textos ficcionais, sendo que vários deles foram adequados à
publicação em termos de tamanho e, portanto, revelam-se fragmentários. A leitura dos 24
textos que compõem o livro Gefangen in Hohenschönhausen nos permitiu sistematizá-los a partir
de sete aspectos que, em certa medida, nos pareceram recorrentes: chegada; descrição;
condições; interrogatório; tortura; cela; reflexão. As marcações textuais passam pela questão
da autoria e da construção do foco narrativo, em que aquele que esteve preso se instaura como
um “eu” (ich) ao falar de si e da carga psicológica a qual fora exposto, mas que às vezes muda
para a primeira pessoa do plural “nós” (wir) ao narrar sobre algo da ordem do coletivo dentro
da prisão, e também para a terceira pessoa do singular (er, es, sie), ao simular objetividade em
descrições ou mesmo ao narrar sobre terceiros. Cabe lembrar que os 24 textos contam com um
elemento paratextual que informa o leitor sobre cada autor, logo abaixo do título do texto, em
texto destacado em itálico: nome; ano de nascimento e, se for o caso, de falecimento; idade no
momento da detenção; profissão; motivo alegado para a detenção; período em que esteve
recluso na prisão de Hohenschönhausen. Através do estudo de textos memorialísticos e
autobiográficos, cujos autores, na maioria, perseguidos e ex-presos políticos, relatam sobre suas
vivências sob o regime totalitário do SED – Sozialistische Einheitspartei Deutschlands (Partido
Socialista Unitário da Alemanha), pudemos vislumbrar as diversas formas e fases da violência
praticada pelo Estado contra possíveis dissidentes políticos na República Democrática Alemã.