A escrita de Yoko Tawada explora a materialidade dos signos não como propriedade estável, mas como condição sujeita a contínuas transformações. A partir de uma análise textual de escritos reunidos principalmente em Verwandlungen (1998) e Überseezungen (2002), este artigo investiga a maneira como a autora torna perceptível o corpo da escrita no trânsito entre línguas e sistemas gráficos distintos. Na escrita alfabética, letras podem adquirir volume, transformar-se em obstáculos, imagens e objetos quando o fluxo habitual da leitura é interrompido; na tela do computador, por sua vez, perdem peso, aparecem e desaparecem, e assumem uma existência fantasmagórica. O percurso acompanha especialmente as imagens do muro e da parede transparente, a percepção das letras como formas em um museu e os fantasmas produzidos pela passagem entre escrita alfabética e ideogramática. Em diálogo pontual com formulações de Derrida e Barthes, propõe-se compreender essas transformações não como oposição simples entre materialidade e ausência, mas como movimentos por meio dos quais as relações entre forma, som e significado são desestabilizadas e reorganizadas. O estranhamento produzido pela língua estrangeira e pela transcrição entre diferentes sistemas de escrita torna-se, assim, um procedimento de criação literária: aquilo que tende a desaparecer na leitura pode reaparecer como corpo, imagem, associação inesperada ou fantasma.