Este artigo retomou o conceito de interdiscurso da Análise do Discurso de filiação pecheuxtiana para mostrar sua atualidade e produtividade analítica, entendendo-o como "todo complexo com dominante" de formações discursivas, regido por contradição, desigualdade e subordinação, a partir do qual se produz materialmente o sentido no intradiscurso. Apresentamos um dispositivo teórico-metodológico que articula interdiscurso, memória discursiva e esquecimento, expondo como a interpelação do indivíduo em sujeito opera pela identificação com o jogo de FDs que o domina, sustentando a evidência dos sentidos e a ilusão de autoria. Lemos, assim, o deslocamento parafrástico entre os slogans/marcas do atual governo federal "Governo Federal – Brasil União e Reconstrução" (2023) e "Governo do Brasil, do lado do povo brasileiro" (2025), mostrando o papel dos aparelhos ideológicos de Estado na normatização e difusão de evidências de sentido. A análise trabalhou três mecanismos interdiscursivos: (1) o efeito de pré-construído; (2) o efeito de sustentação; e (3) o efeito de discurso-transverso. Concluímos que a atualidade do interdiscurso permanece condição de possibilidade da análise do discurso, já que a análise de seus mecanismos é o que permite analisar a luta/disputa por significar/interpretar, neste artigo, um mesmo enunciado.
Palavras-chave: interdiscurso; memória discursiva; formações discursivas; sujeito; slogan/marca governamental.