Este artigo examina a introdução de Michel Pêcheux ao número 37 da revista Langages (1975), texto que articula um pilar teórico central de Les vérités de La Palice: a distinção entre linguística e semântica discursiva. Analisa-se como Pêcheux fundamenta a sua teoria dos processos de significação rejeitando, simultaneamente, o formalismo de uma semântica intralinguística e o subjetivismo das teorias centradas no falante. Essa dupla recusa reside no imperativo de que os processos de significação são, ao mesmo tempo, formais e ideologicamente determinados. O texto destaca também a relação entre língua, compreendida como condição material invariante, e discurso, concebido como prática histórica que se dá sobre essa base ao mesmo tempo em que a reconfigura. Mecanismos como sobrecarga, recobrimento e apagamento ilustram essa dinâmica fundamental para a compreensão das relações entre língua e discurso. O artigo explora ainda a crítica de Pêcheux ao formalismo (a despeito de sua defesa de uma abordagem rigorosamente formal), o papel da informática na identificação de zonas de paráfrase discursiva e a reflexão sobre uma teoria não-subjetivista da enunciação, apresentada como condição indispensável para uma teoria materialista do discurso.