Ameaça silenciosa: análise histórica e tendências futuras da supressão dos campos naturais do bioma Pampa pela expansão agrícola
Abstract
O Pampa apresenta desafios críticos, sendo o bioma brasileiro com a menor extensão de áreas protegidas e a maior taxa de perda proporcional de vegetação nativa. Neste estudo, investigamos a supressão histórica da vegetação campestre nativa no bioma Pampa com base em dados anuais do MapBiomas (1985–2023). Utilizamos um modelo linear generalizado (GLM) com estrutura de autocorrelação temporal para analisar o impacto da expansão das áreas de cultivo de soja e silvicultura na perda de vegetação campestre, focando nos municípios com as maiores perdas. Por meio de modelagem preditiva, projetamos cenários futuros de perda do patrimônio campestre em áreas privadas (~85% da área total do bioma), integrando variáveis temporais e espaciais derivadas das tendências históricas. Os resultados evidenciam uma aceleração preocupante na supressão campestre do Pampa, com intensificação marcante nas últimas duas décadas. Enquanto os períodos iniciais (1985–1990 e 1985–1995) registraram perdas mínimas, os mais recentes (2013–2023 e 2018–2023) alcançaram níveis críticos. Em 38 anos, a perda acumulada de vegetação campestre nativa alcançou 3,5 milhões de hectares (38,55%). A partir de 2003, a supressão se intensificou, com perdas de 29,98% da área remanescente naquele ano e 26,4% da área original de 1985. Quatro mesorregiões gaúchas concentraram 85,2% dos municípios com maiores perdas: Sudeste (25,9%), Centro Ocidental (20,4%), Metropolitana de Porto Alegre (20,4%) e Sudoeste (18,5%). Nos municípios com maiores perdas, a expansão da soja e da silvicultura explicou, em conjunto, 87% da variação total na supressão da vegetação campestre. Nossas projeções mais robustas indicam que, sem ações imediatas, os campos nativos em áreas privadas poderão desaparecer antes do final deste século, em um período de 64 a 73 anos. Os resultados evidenciam a rápida conversão dos campos naturais do Pampa, ameaçando sua rica biodiversidade, os serviços ecossistêmicos essenciais e os modos de vida tradicionais que deles dependem. Implementar políticas eficazes é essencial para mitigar esse processo, garantindo a preservação do patrimônio ambiental e cultural do Pampa para as futuras gerações.
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