Uma Etnografia da Reforma? Curiosidade e Religião no Diário de Viagem (1580-1581) de Michel de Montaigne
Resumo
O Journal de Voyage en Italie par la Suisse et l’Allemagne en 1580 et 1581 de Michel de Montaigne, publicado postumamente em 1774, costuma ser tratado como um texto subsidiário à interpretação dos Essai, publicados com o aval do autor em 1580. No entanto, enquanto aide-mémoire manuscrito e privado de uma viagem, o Diário abre margem para a experimentação e o registro da diversidade de costumes imponderáveis no contexto da auto-estilização calculada dos Ensaios. Um dos aspectos mais notáveis desta abertura, é a curiosidade de Montaigne pelas religiões de cada lugar, que abrange as novas de zwinglianos, calvinistas e luteranos e as antigas, de judeus e católicos, e inclui a perspectiva de leigos e ministros, questões de doutrina e culto. Este artigo examina como no auge dos conflitos religiosos a religião se torna etnografável. Argumenta-se que a etnnografia do Diário é determinada menos pela “emancipação” da religião, ou por um observador cujo ponto de vista é secularizado, do que pela linguagem e as condições específicas do dissenso religioso.