CHAMADA ABERTA -Dossiê: Ditaduras em contextos de língua portuguesa

2026-09-21

Nas eleições de 2018 no Brasil, um deputado oriundo do baixo clero da política institucional, admirador confesso do torturador Carlos Brilhante Ustra, foi eleito presidente e, como agenda estética de governo, pôs em cena figuras, discursos e mitos provenientes da Ditadura Civil Militar dos anos 1964-1985. Sob o lema Pátria amada Brasil, o mesmo capitão perdeu as eleições de 2022 por margem pequena no segundo turno. Em 2025 foi preso por tentativa de golpe de Estado e, agora, em 2026, apesar do ídolo detido, o campo político da extrema direita consagrou um de seus filhos para sucessor do pai, disputando as eleições presidenciais. Figuras e discursos como essas transportam para a contemporaneidade os mitos e o imaginário que, além de bem-sucedidos processos de subjetivação, deram tom grandioso, de dever patriótico e civilizatório, a um sistema de maquinações, perseguições e torturas, perpetrado por militares nos anos de 1960 a 1980, o qual, com o apoio da Imprensa, de setores empresariais e grande parte da classe média conservadora, cerceou a liberdade de expressão, cassou opositores, prendeu e matou estudantes, sindicalistas e religiosos alinhados à Teologia da Libertação. Que, em 2026, personagens desse calibre se apresentem como herdeiros dessas práticas e ideias consterna e diz muito a respeito do imaginário social brasileiro.

País fundado sobre o extermínio de populações indígenas, colonialismo predatório e mão de obra escravizada, existe no Brasil a propensão à violência, principalmente institucional, que, durante o século XX, cristalizou-se em duas ditaduras, o Estado Novo de Getúlio Vargas (1937-1945), marcado por desenvolvimentismo, direitos trabalhistas baseados na constituição do estado fascista italiano e demais ambiguidades no contexto da Segunda Guerra Mundial, e a Ditadura Civil Militar Brasileira (1964-1985), conclamada pelas marchas em prol de Deus, Família e Propriedade e apoiada pelos EUA no contexto de Guerra Fria. Tais regimes de exceção, seja pelo distanciamento temporal no qual estamos, seja pela forma farsesca com que são citados e encenados, escancaram a fragilidade das instituições e dos pactos democráticos brasileiros.

Do ponto de vista literário, mesmo envoltos em conjunturas de silenciamento e repressão, diferentes vozes ousaram escrever se contrapondo aos ditadores tupiniquins. De Jorge Amado, Graciliano Ramos a Lygia Fagundes Telles, Carlos Heitor Cony, Ignácio de Loyola Brandão, muitos inscreveram sua literatura em oposição à anomia institucional. Contemporaneamente, não são poucas as obras que refletem e criticam este tempo em que forças neofascistas se organizam e ocupam posições importantes nas estruturas de poder. Sobreviventes ou resistentes a esses momentos, este número da revista Nau Literária se abre para estudos a respeito de obras que versem sobre regimes de Estado de exceção, ditaduras e repressão, não apenas em contexto brasileiro, como também no restante do mundo lusófono, que viveu sob o jugo da ditadura passadista e bolorenta do Estado Novo de António de Oliveira Salazar (1933-1974), também este com seus mitos e romantismos próprios a encobrir, sob cantos de Os Lusíadas, décadas de atraso, violência e exploração colonial. Interessa ao Dossiê trabalhos que abordem obras específicas, vinculadas a um contexto particular, assim como revisões históricas mais amplas que abordem comparativamente uma série de textos literários que ajudem a iluminar o problema das ditaduras nos contextos da língua portuguesa. 

 

Data-limite para o envio de artigos: 15 de abril de 2027. 

 

Organização: Arthur Beltrão Telló (UFRGS), Filipe de Freitas Gonçalves (UFRGS), Gabriel Esteves (UFRGS). 

 

______________________________

 

Pedimos aos autores que consultem as Normas de Publicação antes de enviarem seus manuscritos e se certifiquem de que ele atende a todos os critérios estabelecidos. Qualquer dúvida deve ser enviada à Comissão Editorial. 

 

______________________________

 

Lembramos ainda que a Revista Nau Literária aceita em fluxo contínuo submissões de temática livre, desde que dentro de seu Foco e Escopo.