Uso da Dexmedetomidina para a contenção química de uma Anta Brasileira (Tapirus terrestris) de cativeiro
DOI:
https://doi.org/10.22456/1679-9216.124863Resumo
Antecedentes: Considerado o maior mamífero terrestre da América do Sul, a Anta brasileira (Tapirus terrestris), é uma espécie vulnerável quanto ao seu grau de conservação. Em cativeiro, sua saúde é avaliada por meio da observação comportamental, física e por exames, sendo necessária, e alguns casos, a contenção química, reduzindo o estresse. Anestésicos dissociativos e sedativos são utilizados para a sedação destes animais, e poucos estudos relatam o uso da dexmedetomidina e seus efeitos quando associadas a outros fármacos em protocolos de contenção química, por isso, este trabalho relata o seu emprego, com cetamina e midazolam, em uma anta brasileira jovem.
Caso: Uma anta brasileira, macho, 89 kg, um ano e meio de idade, lotada no CETAS de Rio Branco, Acre, foi contida quimicamente com dexmedetomidina (7µg/kg), cetamina (1,5mg/kg) e midazolam (0,2 mg/kg), para a coleta de sangue venoso, swab da mucosa oral e retal, e microchipagem. O protocolo foi administrado por via intramuscular, no tríceps braquial direito, após contenção física. Após cinco minutos da aplicação, o animal assumiu decúbito esternal, e apresentou refluxo. Passados 15 minutos, este foi posicionado em decúbito lateral direito. Durante a coleta, foram monitoradas, a frequência cardíaca (48 ± 10 bpm), frequência respiratória (29 ± 1 mpm), temperatura retal (38,1 ± 0,18 °C), saturação da oxihemoglobina (97 ± 1%) e o traçado eletrocardiográfico pelo monitor multiparamétrico. A anta apresentou grau de sedação profundo, imobilidade, bom relaxamento muscular, reflexo palpebral medial discreto e rotação bilateral do globo ocular. Após 40 minutos da administração do protocolo, foi realizada a reversão sedativa com 14 µg/kg atipamezole, por via intramuscular. Depois de cinco minutos dessa administração, a anta apresentou sinais de grau de sedação leve. Após dez minutos, assumiu a posição quadrupedal, permaneceu nesta por oito minutos, e retomou o decúbito esternal, de modo suave. Somente após 20 minutos, reassumiu a posição quadrupedal, com leve ataxia, bom tônus muscular e consciente. Depois de 50 minutos, recebeu alta anestésica.
Discussão: Os cavalos domésticos são filogeneticamente próximos das antas, por isso a escolha das drogas e das doses do protocolo utilizado foi baseada em seu uso em cavalos, e também em estudos realizados com antas. Apesar de dócil e passiva, a anta não era condicionada e não permitia a manipulação e coleta de amostras de forma colaborativa; portanto, estava quimicamente contido. A contenção física realizada não gerou uma imobilização satisfatória da anta, resultando em agitação e estresse e causando a quebra da agulha. O refluxo apresentado pela anta minutos após a sedação e na recuperação foi induzido pela dexmedetomidina, e apenas os pedaços de banana não digeridos foram oferecidos ao animal. Refluxo mais estresse de jejum prolongado e contenção física abaixo do ideal foi responsável pela mudança no comportamento alimentar da anta, com possível gastrite de estresse 24 h após a contenção química. Apenas um estudo relatou o uso de dexmedetomidina em antas, associado a infusões contínuas de cetamina, midazolam e guaiacol gliceril éter para procedimentos de campo de moderada a longa duração. A reversão sedativa da dexmedetomidina pelo atipamezol reduziu o tempo de recuperação e o risco de morte por depressão cardiorrespiratória. A combinação anestésica utilizada foi eficaz, promovendo imobilidade, relaxamento muscular e estabilidade dos parâmetros físicos avaliados, com indução rápida e suave e nível adequado de sedação para o objetivo, boa reversão sedativa e recuperação anestésica.
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