Úlcera de córnea em bugio-ruivo (Alouatta guariba clamitans) - Tratamento com Soro heterólogo
DOI:
https://doi.org/10.22456/1679-9216.127464Resumo
Background: Na rotina de atendimentos de primatas não-humanos, traumas oculares costumam ser frequentes, porém, diferentemente da clínica de pequenos animais, a prevalência das úlceras de córnea não é documentada. Dentre as inúmeras opções terapêuticas em cães, o soro sanguíneo tem sido cada vez mais utilizado como tratamento adjuvante nestas afecções devido às suas propriedades semelhantes à lágrima. A partir disso, o presente estudo tem por objetivo descrever um caso de úlcera de córnea em um bugio-ruivo (Alouatta guariba clamitans) atacado por ouriço e a utilização do soro heterólogo obtido a partir de um equino como tratamento adjuvante.
Case: Um bugio-ruivo (Alouatta guariba clamitans), que havia sido atacado por espinhos de ouriço, foi atendido em um Hospital Veterinário Universitário. Durante o exame clínico, percebeu-se a presença de blefaroespasmo e secreção no olho direito e, então, prosseguiu-se com o exame oftalmológico que, através do teste de fluoresceína, detectou a presença de extensa úlcera de córnea superficial no olho direito. Após a remoção dos espinhos, iniciou-se o tratamento da úlcera corneana com colírio a base de Tobramicina, colírio de Sulfato de atropina 1% e soro proveniente de sangue equino em forma de colírio como terapia adjuvante. Após 5 dias de tratamento, repetiu-se o teste de fluoresceína, que foi negativo em ambos os olhos devido à cicatrização completa da lesão e, assim, o tratamento foi concluído.
Discussion: A escassez de literatura científica em animais selvagens é um dos responsáveis pela dificuldade dos avanços de procedimentos clínicos e cirúrgicos em primatas não-humanos. As úlceras de córnea são caracterizadas pela perda do epitélio corneano com exposição do estroma e os principais tratamentos clínicos adotados referem-se à terapia antimicrobiana, analgésicos, agentes lubrificantes e aos fármacos antiproteases. Amplamente utilizado como terapia adjuvante nas úlceras de córnea de pequenos animais, o soro sanguíneo apresenta algumas vantagens pois é rico em fatores de crescimento, vitaminas, imunoglobulinas e substâncias anticolagenolíticas, além de possuir baixo custo para sua obtenção. A partir disso, no caso relatado, optou-se pela utilização do soro sanguíneo obtido a partir de um equino como tratamento adjuvante de úlcera de córnea em um bugio-ruivo, o que corroborou para a cicatrização completa da úlcera de córnea em apenas cinco dias, contribuindo para o bem-estar dessa espécie e colaborando para a evolução da oftalmologia em espécies ainda pouco estudadas.
Descritores: úlcera de córnea, bugio-ruivo, soro heterólogo.
Downloads
Referências
Bambirra A.L., Oriá A.P., Bahia R., Dórea Neto F.A. & Pinna M.H. 2011. Viabilidade microbiológica do soro sanguíneo autólogo como coadjuvante no tratamento de úlceras de córnea em cães (Canis familiaris, LINNAEUS, 1758). Publicações em Medicina Veterinária e Zootecnia. 5(40): 1-10. DOI:10.22256/pubvet.v5n40.1261. DOI: https://doi.org/10.22256/pubvet.v5n40.1261
Betech H.M., Baca L.O., Velasco R., Levine A., Rodríguez R.A. & Rosales M.M.L. 2007. Hallazgos histopatológicos de la neovascularización corneal en correlacion con la fluorangiografía corneal. Revista Mexicana de Oftalmología. 81(3): 164-170. DOI: 0.1016/j.mexoft.2007.06.002.
Bicca-Marques J.C., Alves S.L. & Ingberman B. 2018. Alouatta guariba clamitans. Cabrera, 1940. In: Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (Org). Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção. Volume II - Mamíferos. Brasília: ICMBio. 2018: 155-161.
Clode A. & Scott E.M. 2021. Clinical pharmacology and therapeutics part 2: antibacterial agents, antifungal agents and antiviral agents. In: Gelatt K.N. (Ed). Veterinary Ophthalmology. 6th edn. Ames: Blackwell Publishing, pp.385-416.
Detwiler S.R. 1939. Comparative studies upon the eyes of nocturnal lemuroids, monkeys, and man. The Anatomical Record. 74: 129-145. DOI: 10.1002/ar.1090740202. DOI: https://doi.org/10.1002/ar.1090740202
Galera P.D., Ávila M.O., Ribeiro C.R. & Santos F.V. 2002. Estudo da microbiota da conjuntiva ocular de macacos-prego (Cebus apela – LINNAEUS, 1758) e macacos bugio (Alouatta caraya – HUMBOLDT, 1812), provenientes do reservatório de Manso, MT, Brasil. Arquivo do Instituto Biológico. 69(2): 33-36. DOI: https://doi.org/10.5216/cab.v14I4.19210. DOI: https://doi.org/10.1590/1808-1657v69n2p0332002
Gelatt K.N. & Samuelson D.A. 1982. Recurrent corneal erosions and epithelial dystrophy in the boxer dog. Journal American Animal Hospital Association. 19: 453-460. DOI: https://doi.org/10.5326/0410158. DOI: https://doi.org/10.5326/0410158
Goto E., Shimura S. & Shimazaki J. 2001. Treatment of superior limbic keratoconjutiviyes by application of autologous serum. The Journal of Cornea and External Disease. 20: 807-810. DOI: 10.1097/00003226-200111000-00006. DOI: https://doi.org/10.1097/00003226-200111000-00006
Kirk E.C. & Kay R.F. 2004. The evolution of high visual acuity in the Anthropoidea. In: Ross C.F. & Kay R.F (Eds). Anthropoid Origins: New Visions. New York: Kluwer Academic/Plenum Publishers, pp.539-602. DOI: https://doi.org/10.1007/978-1-4419-8873-7_20
Kirk E.C. 2006. Effects of activity pattern on eye size and orbital aperture size in primates. Journal of Human Evolution. 51: 159-170. DOI: 10.1016/j.jhevol.2006.02.004. DOI: https://doi.org/10.1016/j.jhevol.2006.02.004
Lagnado R., King A.J., Donald F. & Dua H.S. 2004. A protocol for low contamination risck of autologous serum drops in the manegment of ocular surface disorders. British Journal of Ophtalmology. 88: 464-465. DOI: 10.1136/bjo.2003.025528. DOI: https://doi.org/10.1136/bjo.2003.025528
Lange R.R. 2012. Anatomia, morfologia e fisiologia ocular de algumas espécies de interesse na medicina de animais selvagens e de laboratório com ênfase em primatas neotropicais. 84f. Curitiba, PR. Tese (Doutorado em Ciências Veterinárias) – Programa de Pós-Graduação em Ciências Veterinárias, Universidade Federal do Paraná.
López-García J.S., García-Lozano I., Rivas L. & Martínez-Garchitorena J. 2007. Aplicaciones del suero autólogo en oftalmologia. Archivos de la Sociedad Española de Oftalmologia. 82(1): 9-20. DOI: 10.4321/S0365-66912007000100004. DOI: https://doi.org/10.4321/S0365-66912007000100004
Mattoon J.S. & Nyland T.G. 2005. Olho. In: Nyland T.G. & Mattoon J.S. (Eds). Ultrassom Diagnóstico em Pequenos Animais. 2.ed. São Paulo: Saunders, pp.315-335.
Meekins J.M., Rankin A.J. & Samuelson D.A. 2022. Ophtalmic Anatomy. In: Gelatt K.N. (Ed). Veterinary Ophthalmology. 6th edn. New York: Wiley-Blackwell, pp.53-61.
Mendes S.L., Rylands A.B., Kierulff M.C.M. & de Oliveira M.M. 2008. Alouatta guariba ssp. clamitans. The IUCN Red List of Threatened Species 2008. Disponível em: http://dx.doi.org/10.2305/IUCN.UK.2008.RLTS.T39916A10284881.en. Acesso em: 7 fevereiro 2022. DOI: https://doi.org/10.2305/IUCN.UK.2008.RLTS.T39916A10284881.en
Pan Q., Angelina A., Zambrano A., Marrone M., Stark W.J., Heflin T., Tang L. & Akpek E.K. 2013. Autologous serum eye drops for dry eye. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2(2): CD009327. DOI: 10.1002/14651858.CD009327.pub3. DOI: https://doi.org/10.1002/14651858.CD009327.pub2
Partal A. & Scott E. 2011. Low‐cost protocol for the production of autologous serum eye drops by blood collection and processing centres for the treatment of ocular surface diseases. Transfusion Medicine. 21: 271-277. DOI: 10.1111/j.1365-3148.2011.01072.x. DOI: https://doi.org/10.1111/j.1365-3148.2011.01072.x
Pepose J. & Ubels J. 1992. The cornea. In: Hart W. (Ed). Adler’s Physiology of the Eye. Hart W. (Ed.). St. Louis: Mosby Year Book, pp.29-70.
Ranzani J.J.T., Cremonini D.N., Brandão C.V.S., Siqueira A.K. & Chiurciu J.L.V. 2006. Controle microbiológico do soro equino para o tratamento de lesões corneanas. Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia. 58(2): 100-113. DOI: https://doi.org/10.5935/0004-2749.2006000.1.
Ross C.F. & Kirk E.C. 2007. Evolution of eye size and shape in primates. Journal of Human Evolution. 52(3): 294-313. DOI: 10.1016/j.jhevol.2006.09.006. DOI: https://doi.org/10.1016/j.jhevol.2006.09.006
Ross C.F. 2000. Into the light: the origin of Anthropoidea. Annual. Review Anthropology. 29: 147-194. DOI: 10.1146/annurev.anthro.29.1.147. DOI: https://doi.org/10.1146/annurev.anthro.29.1.147
Santo M.R.M. 2012. Estudo da microbiota conjuntival bacteriana de primatas não humanos (Cebus apella e Aotus azarai infulatus) mantidos em cativeiro. 53f. Belém, PA. Dissertação (Mestrado em Saúde e Produção Animal) – Curso de mestrado em Saúde e Produção na Amazônia, Universidade Federal Rural da Amazônia.
Schultz A.H. 1940. The size of the orbit and of the eye in primates. American Journal of Physical Anthropology. 26: 389-408. DOI: 10.1002/ajpa.1330260138. DOI: https://doi.org/10.1002/ajpa.1330260138
Tsubota K., Goto E., Shimmura S. & Shimazakie J. 1999. Treatment of persistent corneal epithelial defect by autologous serum application. Ophthalmology. 106(10): 1984-1989. DOI: 10.1016/S0161-6420(99)90412-8. DOI: https://doi.org/10.1016/S0161-6420(99)90412-8
Whitley R.D. & Hamor R.E. 2021. Diseases and Surgery of the Canine Cornea and Sclera. In: Gellat K.N. (Ed). Veterinary Ophthalmology. 6th edn. New York: Wiley-Blackwell, pp.1150-1172.
Arquivos adicionais
Publicado
Como Citar
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2023 Carolina Cauduro da Rosa, Anita Marchionatti Pigatto, Guilherme Rech Cassanego, Fabiano da Silva Flores, Natália Karianne Brandenburg, Gabriella De Nardin Peixoto, Luis Felipe Dutra Corrêa

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
This journal provides open access to all of its content on the principle that making research freely available to the public supports a greater global exchange of knowledge. Such access is associated with increased readership and increased citation of an author's work. For more information on this approach, see the Public Knowledge Project and Directory of Open Access Journals.
We define open access journals as journals that use a funding model that does not charge readers or their institutions for access. From the BOAI definition of "open access" we take the right of users to "read, download, copy, distribute, print, search, or link to the full texts of these articles" as mandatory for a journal to be included in the directory.
La Red y Portal Iberoamericano de Revistas Científicas de Veterinaria de Libre Acceso reúne a las principales publicaciones científicas editadas en España, Portugal, Latino América y otros países del ámbito latino