Interação medicamentosa em tratamento de epilepsia idiopática canina

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https://doi.org/10.22456/1679-9216.121607

Resumo

Introdução: O grande número de doenças demanda desenvolvimento perene da indústria farmacêutica. A fase de testes de medicamentos é essencial para disponibilizá-los de forma segura. É necessário ciência das propriedades farmacológicas, efeitos adversos e interações medicamentosas. Interações medicamentosas essas comuns na medicina veterinária e devem ser evitadas. As crises epiléticas, por vezes, demandam terapêutica polimedicamentosa, predispondo os pacientes às interações farmacológicas. A interação entre carbamazepina e fenobarbital relatada em literatura é um exemplo. O objetivo desse trabalho é relatar interação medicamentosa em tratamento de epilepsia idiopática.

Caso: Um cão, macho, Border Collie, 1 ano de idade, chegou ao Hospital Veterinário da Universidade Federal de Lavras em pós-ictus. Tutor relatava que há um ano o animal apresentava crises epiléticas e clusters com intervalos de 21 a 25 dias. Apesar do uso contínuo dos anticonvulsivantes fenobarbital (7,4 mg/kg, v.o, BID até novas recomendações) e carbamazepina (7,5 mg/kg, v.o, BID até novas recomendações) prescritos previamente, não se obteve controle das crises. Ao exame físico, notou-se taquipneia, ptialismo, midríase, intenso cansaço e alienação ao ambiente. Não respondia ao reflexo de ameaça. Foi solicitado hemograma, bioquímica sanguínea hepática e renal, dosagem sérica de eletrólitos (potássio, sódio, cálcio e fósforo) e de fenobarbital. Mediante o histórico do animal, a característica racial e alterações do exame físico associados aos resultados normais nos exames complementares, diagnosticou-se epilepsia idiopática. Após análise do caso, foi observado que a ineficiência no controle das crises convulsivas era devida possivelmente à interação medicamentosa entre fenobarbital e carbamazepina. A carbamazepina e o fenobarbital reduzem reciprocamente suas meia-vidas. Para comprovar a hipótese levantada, a concentração sérica de carbamazepina foi reduzida gradativamente de forma experimental por meio do desmame de sua dose administrada ao paciente. Foi realizada dosagem seriada da concentração de fenobarbital na corrente sanguínea. Como resultado, o fenobarbital sérico antes em concentração de 13,3 mg/dl com administração concomitantemente de carbamazepina se elevou para 22 mg/dl 40 dias após o início do desmame de carbamazepina (T0) e para 36 mg/dl cento e vinte dias após o T0.  Portanto, houve um aumento da concentração de fenobarbital na corrente sanguínea ao passo em que a concentração sérica de carbamazepina declinava. O paciente espaçou suas crises epiléticas para a cada 50 a 60 dias com monoterapia de fenobarbital em dose de 6 mg/kg.

Discussão: O controle eficiente dos clusters, isto é, redução das convulsões em 50% só foi possível devido à percepção minuciosa da possível interação relatada em medicina. A carbamazepina e o fenobarbital são indutores de isoenzimas do sistema P450. A administração concomitante de ambos medicamentos potencializavam a ação de isoenzimas do sistema microssomal hepático, o que acarretava metabolização acelerada dos fármacos. Após o desmame da carbamazepina, ou seja, redução da ação da carbamazepina sobre as isoenzimas do sistema enzimático P450, a concentração de fenobarbital se normalizou em 36 mg/kg. Tal concentração está dentro do intervalo de referência relatado em literatura: 25 mg/kg a 45 mg/kg de fenobarbital sérico para eficiência do tratamento. Obteve-se, portanto, o controle das crises convulsivas.  A elevação da concentração de fenobarbital em decorrência apenas do desmame da carbamazepina mesmo após diminuição da dose diária do barbitúrico prescrita ao animal, contribuiu para evidências da interação desses medicamentos. Nota-se que o conhecimento prévio de propriedades farmacológicas, estudo minucioso do histórico de pacientes e cooperação do tutor foram primordiais para sucesso terapêutico e exercício da medicina veterinária baseada em evidências.

Palavras-Chaves: interação medicamentosa, carbamazepina, fenobarbital, enzima P450.

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Referências

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Arquivos adicionais

Publicado

2022-07-22

Como Citar

Ribeiro, D., Leite , A. P. ., Alvim , G. R. ., Costa, L. G. ., Chagas , Z. S. ., Silva, A. K. de L. ., … Nogueira, R. B. . (2022). Interação medicamentosa em tratamento de epilepsia idiopática canina. Acta Scientiae Veterinariae, 50. https://doi.org/10.22456/1679-9216.121607

Edição

Seção

Case Report