A Memória como Espaço Fantástico

Cornelia Eckert, Ana Luiza Carvalho da Rocha

Resumo


No desvendamento destas diferentes modalidades das sociedades humanas configurarem o controle simbólico do tempo, as ciências humanas (sobretudo a antropologia e a história) trataram, mais recentemente, de desconstruir o tempo por intermédio de sua dimensão interpretativa, seja como espaço de construção de uma inteligência narrativa que encerra a experiência de duração reino da imaginação criadora; seja como fenômeno que participa do trajeto do imaginário e de sua topologia fantástica, nos arranjos que engendra entre vida e matéria.

O tom interpretativista pode ser considerado um denominador comum que atravessa as reflexões de inúmeros intelectuais e filósofos contemporâneos que, hoje, revisitam a noção de memória como elemento fundante do processo de construção da figura primordial do homem, tratando-se aí de reconhecer e compreender as tradições históricas, sociais e culturais que carregam e marcam de suas configurações. Assim, qualificam-se as noções de memória a partir do contexto em que são geradas (nos termos de genealogia e arqueologia) e ressaltam-se os aspectos dialéticos, contraditórios e conflituais na forma como emergem no interior das produções do conhecimento humano.

Neste sentido, a força interpretativa reconhecida à memória como espaço de construção do conhecimento, confere a ela o estatuto de uma linguagem de símbolos que reúne uma ação inteligente do sujeito humano sobre o mundo, fragmento do ato de pensar no qual se pretende descortinar o momento intangível de enlaçamento, a um só tempo, do “eu” e do mundo. Uma vez que se atribua ao fenômeno da memória o instante fugaz em que a linguagem humana estrutura o pensamento, através da interpretação de um princípio de causalidade (formal material), todo o esforço será de compreender a sua acomodação/assimilação ao arbítrio de uma gramática simbólica, a cultura.

A memória como espaço fantástico, lugar de extraversão e introversão de uma linguagem arbitrária de símbolos, coordenada, no plano da imaginação criadora, por esquemas de pensamento, apela, portanto, para os diferentes procedimentos interpretativos-narrativos que dão sentido aos arranjos entre vida e matéria, reunindo-as de forma inseparável.


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DOI: https://doi.org/10.22456/1984-1191.8926

Revista Iluminuras - Publicação Eletrônica do Banco de Imagens e Efeitos Visuais - BIEV/LAS/PPGAS/IFCH/UFRGS

E-ISSN 1984-1191