Corporativismo, cidadania regulada e o ‘fantasma da classe ausente’: apontamentos historiográficos em torno da reforma sanitária brasileira

José Roberto Franco Reis

Resumo


O final dos anos 1970 e os anos 1980 foram um momento chave de emergência de um pujante movimento operário no Brasil, conhecido como Novo Sindicalismo, que se configuraria numa importante  força no processo de redemocratização. Nesse mesmo período, também se observa a emergência da  chamada Reforma Sanitária, que lançaria as bases de uma transformação vigorosa no sistema de saúde no Brasil, instituindo o reconhecimento da saúde como um direito universal, com acesso público, gratuito e igualitário, e que se consolida através da instituição do SUS na Constituição de 1988. No entanto, a literatura do campo da saúde, de um modo bastante consensual, tem apontado a incipiente e frágil base de apoio ao movimento de reforma sanitária e ao SUS entre os sindicatos de trabalhadores – que teriam, em boa medida, se mobilizado para obter planos e seguros privados de saúde. Neste artigo, buscamos refletir sobre tal questão à luz da literatura mais recente sobre os mundos do trabalho, que tem proposto releituras significativas das interpretações consagradas sobre o sindicalismo corporativista, bem como dos arranjos sociais configurados como segmentados e regulados e, por conseguinte, contrários a proposições de teor mais universalista.


Palavras-chave


movimento sindical; reforma sanitária; direito à saúde; corporativismo; cidadania regulada

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DOI: https://doi.org/10.22456/1983-201X.97159