Formas de resistências cotidianas durante o colonialismo tardio no sul de Moçambique.

Hector Guerra Hernandez

Resumo


Desde sua independência Moçambique experimentou transformações econômicas, políticas e sociais profundas. Estas transformações estiveram marcadas pela introdução de diferentes projetos de desenvolvimento que apontavam transformar um mundo rotulado de tradicional para um moderno. Localizando nossa reflexão no sul do país, tentaremos questionar os processos de arregimentação da mão de obra nativa por parte da empresa colonial e as dinâmicas que esta população desenvolveu como respostas a estas políticas, privilegiando uma abordagem que discuta a relação entre modernização econômica e modernidade política. Combinando o conceito de mobilidade forçada e margens do estado, assim como os conceitos de colonialidade e repertórios de poder, tentamos fazer uma releitura da relação entre empresa colonial e práticas autonômicas. Pretende-se assim refletir o caráter compulsório do uso da força de trabalho desde uma perspectiva que evidencie o ethos colonial dos europeus e confrontá-lo às diversificadas respostas dos habitantes da região, e em especial entender como estes processos vão mobilizar racionalidades e subjetividades diversas as quais parecem permear uma serie de práticas no período pós-colonial.

Palavras-chave


Moçambique; Colonialismo Tardio; Trabalho Forçado; Mobilidade; Resistência

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DOI: https://doi.org/10.22456/1983-201X.96555

Anos 90 - Revista do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul