Alforria, paternalismo e etnicidade em Porto Alegre, 1800-1835

Gabriel Aladrén

Resumo


Este artigo dedica-se a analisar os padrões de alforria em Porto Alegre, nas três primeiras décadas do século XIX. Os escravos, na região pesquisada, estavam presentes em praticamente todas as atividades produtivas. Nesse contexto, a prática da manumissão difundiu-se e ensejou a formação de um importante contingente populacional de libertos. As possibilidades de conquista da alforria eram distintas para os escravos africanos e os nascidos no Brasil. Os primeiros alforriavam-se, sobretudo, através da compra de sua liberdade, possibilitada pela formação de pecúlio, quer individualmente, quer com o auxílio de parentes, amigos e aliados. Os nascidos no Brasil dominavam amplamente as alforrias que não envolviam contrapartida monetária. Verificou-se que essa predominância assentava-se na relação, regulada pela política de domínio paternalista, de maior proximidade entre esses cativos e seus senhores. Entretanto, essa proximidade não significava a ausência de conflitos e tensões.


Palavras-chave


Escravidão; Libertos; Alforria; Paternalismo; Etnicidade

Texto completo:

PDF

Referências


ALADRÉN, Gabriel. Liberdades negras nas paragens do sul: alforria e inserção social de libertos em Porto Alegre, 1800-1835. Dissertação (Mestrado). Universidade Federal Fluminense. Niterói, 2008.

APPIAH, Kwame Anthony. Na casa de meu pai: a África na filosofia da cultura. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997 [1992].

BARTH, Fredrik. Os grupos étnicos e suas fronteiras. O guru, o iniciador e outras variações antropológicas. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2000, p. 25-67.

BARTOLOMÉ, Miguel Alberto. Bases culturales de la identidad étnica. Gente de costumbre y gente de razón. Las identidades étnicas en México. Instituto Nacional Indígena/Siglo Veintiuno Editores, 1997, p. 75-98.

BERUTE, Gabriel Santos. Dos escravos que partem para os portos do sul: características do tráfico negreiro do Rio Grande de São Pedro do Sul, c. 1790. c. 1825. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2006.

CHALHOUB, Sidney. Machado de Assis: historiador. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

_______. Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na corte. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

CUNHA, Manuela Carneiro da. Sobre os silêncios da lei: lei costumeira e positiva nas alforrias de escravos no Brasil do século XIX. Antropologia do Brasil: mito, história, etnicidade. São Paulo: Brasiliense/Edusp, 1986, p. 123-144.

_______.. Negros, estrangeiros: os escravos libertos e sua volta à África. São Paulo: Brasiliense, 1985.

EISENBERG, Peter L. Ficando livre: as alforrias em Campinas no século XIX. Homens esquecidos: escravos e trabalhadores livres no Brasil. Séculos XVIII e XIX. Campinas: Editora da Unicamp, 1989, p. 255-314.

FARIA, Sheila de Castro. Sinhás pretas, damas mercadoras. As pretas minas nas cidades do Rio de Janeiro e de São João Del Rey (1700-1850). Tese (Titular). Niterói: História/UFF, 2004.

FLORENTINO, Manolo. Sobre minas, crioulos e a liberdade costumeira no Rio de Janeiro, 1789-1871. In FLORENTINO, Manolo (org.). Tráfico, cativeiro e liberdade: Rio de Janeiro, séculos XVII-XIX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.

FUNDAÇÃO DE ECONOMIA E ESTATÍSTICA. De Província de São Pedro a Estado do Rio Grande do Sul. Censos do RS: 1803-1950. Porto Alegre: FEE/Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa, 1986.

GRINBERG, Keila. Liberata, a lei da ambigüidade: as ações de liberdade da Corte de Apelação do Rio de Janeiro, século XIX. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994.

KARASCH, Mary C. A vida dos escravos no Rio de Janeiro (1808-1850). São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

LARA, Silvia H. Campos da violência: escravos e senhores na Capitania do Rio de Janeiro, 1750-1808. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

LIMA, Henrique Espada. Sob o domínio da precariedade: escravidão e os significados da liberdade de trabalho no século XIX. Topoi. v. 6, n. 11. Rio de Janeiro: UFRJ/ 7 Letras, 2005, p. 289-326.

MAMIGONIAN, Beatriz Gallotti. Do que o .preto mina. é capaz: etnia e resistência entre africanos livres. Afro-Ásia. n. 24. Salvador, 2000, p. 71-95.

MATTOS, Hebe Maria. Das cores do silêncio: os significados da liberdade no sudeste escravista. Brasil, século XIX. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1995.

MATTOSO, Kátia M. de Queirós. Ser escravo no Brasil. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 2003 [1982].

MOREIRA, Paulo R. S. Os cativos e os homens de bem: experiências negras no espaço urbano. Porto Alegre, 1858-1888. Porto Alegre: EST, 2003.

MOREIRA, Paulo R. S.; TASSONI, Tatiani de S. Que com seu trabalho nos sustenta: as cartas de alforria de Porto Alegre (1748-1888). Porto Alegre: EST, 2007.

NISHIDA, Mieko. Manumission and Ethnicity in Urban Slavery: Salvador, Brazil, 1808-1888. Hispanic American Historical Review. v. 73, n. 3. Durham: Duke University Press, 1993, p. 361-391.

OLIVEIRA, Maria Inês Côrtes de. Viver e morrer no meio dos seus. Nações e comunidades africanas na Bahia do século XIX. Revista USP. n. 28. São Paulo: dez.- fev. 1995/1996.

OSÓRIO, Helen. Esclavos en la frontera: padrones de la esclavitud africana en Río Grande del Sur, 1765-1825. In BETANCUR, Arturo et al. (orgs.). Estudios sobre la cultura afro-rioplatense: historia y presente. Montevidéu: Universidad de la República, Departamento de Publicaciones Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación, 2004, p. 7-15.

PENA, Eduardo Spiller. Pajens da casa imperial: jurisconsultos, escravidão e a Lei de 1871. Campinas: Editora da Unicamp, 2001.

SCHERER, Jovani de Souza. Experiências de busca da liberdade: alforria e comunidade africana em Rio Grande, séc. XIX. Dissertação (Mestrado). Universidade do Vale do Rio dos Sinos. São Leopoldo, 2008.

SCHWARTZ, Stuart B. Alforria na Bahia, 1684-1745. Escravos, roceiros e rebeldes. Bauru: EDUSC, 2001, p. 171-218.

SLENES, Robert W. Malungu, ngoma vem!: África coberta e descoberta no Brasil. In Revista USP. n. 12. São Paulo: dez. 1991/fev.1992, p. 48-67.

_______. Na senzala, uma flor: esperanças e recordações na formação da família escrava. Brasil Sudeste, século XIX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

SOARES, Carlos Eugênio Líbano; GOMES, Flávio dos Santos e FARIAS, Juliana Barreto. No labirinto das nações: africanos e identidades no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2005.

SOARES, Márcio de Sousa. A remissão do cativeiro: alforrias e liberdades nos Campos dos Goitacases, c. 1750 - c. 1850. Tese (Doutorado). Universidade Federal Fluminense. Niterói, 2006.

SOARES, Mariza de Carvalho. Devotos da cor: identidade étnica, religiosidade e escravidão no Rio de Janeiro, século XVIII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

TANNENBAUM, Frank. Slave and citizen. Boston: Beacon Press, 1992 [1946].

XAVIER, Regina C. L. A conquista da liberdade: libertos em Campinas na segunda metade do século XIX. Campinas: CMU, 1996.




DOI: https://doi.org/10.22456/1983-201X.6742

Anos 90 - Revista do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul