“Uma grande empresa alemã na mais primitiva exploração da Amazônia”: a campanha ambientalista contra a Volkswagen (anos 1970)

Elenita Malta Pereira

Resumo


Nos anos 1970, em meio a uma série de programas de ocupação para o desenvolvimento da Amazônia brasileira, coordenados pelos governos militares, a empresa alemã Volkswagen implantou um projeto para criar 150 mil cabeças de gado na região. Este artigo aborda a crítica expressa por ambientalistas brasileiros – em especial José Lutzenberger e Magda Renner – ao incêndio provocado pela Volkswagen na Amazônia brasileira, em sua fazenda Companhia Vale do Rio Cristalino (CVRC), por meio da análise da correspondência entre eles e Wolfgang Sauer, Diretor-Presidente da empresa no Brasil. Tanto a correspondência como os documentos que embasam este artigo fazem parte do Arquivo Privado de José Lutzenberger (APJL) e do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul (AHRS). Apelando para uma visão que idealizava a relação da Alemanha com a natureza, os ambientalistas causaram constrangimento e colaboraram para a divulgação, em âmbito internacional, da devastação provocada pela multinacional na Amazônia, com o aval da ditadura militar em vigor no país.


Palavras-chave


Amazônia; Ambientalismo brasileiro; Meio ambiente e ditadura militar; História ambiental

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DOI: https://doi.org/10.22456/1983-201X.63235

Anos 90 - Revista do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul