Séculos de história indígena no coração da América do sul: os chiquitano no (atual) oriente boliviano

Giovani José da Silva

Resumo


Outrora conhecidos também como Trabacicosis ou Tapuymirí, Chiquito ou Chiquitano hoje é, genericamente, a definição de um cadinho de grupos indígenas, os mais variados, reunidos graças à ação missionária jesuítica (1691-1767) nas atuais “terras baixas” bolivianas. Esta ação pode ser resumida em dois aspectos principais: a aglomeração de indígenas em reduções ou missões e a imposição de uma única língua, o Chiquitano, como língua geral. Sobre a história do grupo é possível se estabelecer uma divisão em fases: de 1542 a 1620 (conquista e subjugo dos indígenas), 1620 a 1692 (perambulação de vários grupos pela Chiquitania e eventual caça de índios, pelos espanhóis e portugueses, para escravização), 1692 a 1767 (cristianização dos indígenas), 1767 aos nossos dias (eventos que assinalam intenso contato entre os Chiquitano e não índios, após o período reducional). Se por um lado as missões jesuíticas constituíram-se em um evento incisivo na história dos Chiquitano, por outro propugnaram a destruição de tradicionais estruturas políticas, sociais, econômicas, culturais e religiosas, assim como a mistura entre grupos diversos, alguns até mesmo inimigos entre si. O passado e o presente dos Chiquitano estão intimamente relacionados com o projeto missionário jesuítico, desenvolvido entre o final do século XVII e o início da primeira metade do século XVIII. Tentativas de convivência, imposição de pautas culturais, ressignificação de práticas e representações, diálogos interculturais e resistências armadas foram ingredientes presentes nessa história. O objetivo do artigo é, pois, apresentar uma síntese da trajetória etno-histórica dos indígenas Chiquitano, entre os séculos XVI e XX.


Palavras-chave


História Indígena, Chiquitano, América do Sul, Oriente boliviano, Missões Jesuíticas

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DOI: https://doi.org/10.22456/1983-201X.24003