História e memória na poesia de Conceição Evaristo

Luiz Fernando Valente

Resumo


Mais conhecida por sua ficção, a escritora afro-brasileira Conceição Evaristo (1946) é autora de uma inovadora obra poética, que se insere na melhor tradição do cânone da poesia brasileira ao mesmo tempo em que o renova. Focalizando no livro Poemas da recordação e outros movimentos (2017), uma coletânea de poemas escritos ao longo de várias décadas, nos quais são reveladas preocupações semelhantes às demonstradas na sua prosa, este artigo pretende avaliar a ainda relativamente pouco discutida obra poética de Evaristo a partir da dicotomia entre memória e história, proposta por Pierre Nora em seu célebre ensaio “Entre mémoire e histoire: la problématique des lieux” (1984). Num registro mais “realista”, a poesia de Evaristo participa do esforço no sentido de valorizar uma linha alternativa à narrativa histórica brasileira que faça justiça ao papel desempenhado pelos afro-brasileiros na formação do Brasil, desde o tráfico negreiro até a contemporaneidade, frequentemente marginalizado pela chamada história oficial. A originalidade da contribuição de Evaristo, todavia, consiste em articular essa história com a celebração de lugares de memória, em que as ruínas do passado são reconstruídas na afirmação, ainda que dolorosa, de uma identidade comunitária e utópica. No diálogo entre história e memória, a poesia de Evaristo corporifica a tríplice função – documental, crítica, e transformativa – da melhor literatura de conteúdo histórico, conforme propôs Dominick LaCapra.

Palavras-chave


história; memória; identidade; Conceição Evaristo; caritas

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DOI: https://doi.org/10.22456/1981-4526.105874

Revista Nau Literária | ISSN 1981-4526 | Universidade Federal do Rio Grande do Sul