Emergência lotada: percepções dos residentes sobre o trabalho multiprofissional

Simone Medianera Scremin, Luciana Fernandes Marques

Resumo


A ideia deste artigo foi compreender os processos e dados de realidade que permeiam o Serviço de Emergência do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, a partir da percepção dos residentes sobre a superlotação e propor estratégias educativas e psicoeducativas, que auxiliem a equipe na melhor condução dos casos atendidos. Para dar conta da complexidade deste cenário, nos aventuramos a trilhar pelo caminho da cartografia como método de pesquisa-intervenção. Iniciamos o percurso descrevendo o cenário que servirá de campo de análise. Apresentaremos uma breve revisão histórica da criação do hospital e dos serviços de emergências e urgências hospitalares, focalizando na questão da superlotação, o pano de fundo desse trabalho. Acionamos a investigação a partir de dois encontros realizados com os residentes do Serviço de Emergência, contamos com a participação dos residentes do primeiro ano da Residência Integrada Multiprofissional em Saúde e da Residência em Medicina de Emergência. Participaram da pesquisa todos os residentes que permanecem por, no mínimo, um ano no Serviço de Emergência, totalizando dez residentes, sendo sete da Residência Integrada Multiprofissional em Saúde, ênfase Adulto Crítico e três da Residência em Medicina de Emergência. Estimulado pelo processo de análise e o discurso dos residentes constatamos que o trabalho desenvolvido no Serviço precisa ser realizado de forma coletiva, reforçando a importância de cada vez mais se fortalecer o trabalho interprofissional, assim como, investir na construção de atendimentos que levem em conta a humanização e a integralidade do cuidado. A expectativa é que este trabalho possa servir de estímulo para uma mudança de paradigma pedagógico através de ações educativas e psicoeducativas que possam trazer benefícios à qualidade da assistência prestada ao paciente, tanto a fornecida pela equipe contratada pela instituição quanto pelos estudantes que estão ali para se capacitarem, através da formação em serviço.


Texto completo:

PDF

Referências


ALVAREZ, J.; PASSOS, E. Cartografar é habitar um território existencial. In: PASSOS, E.; KASTRUP, V.; ESCÓSSIA, L. (Orgs.). Pistas do método da cartografia: pesquisa-intervenção e produção de subjetividade. Porto Alegre: Sulina, 2012. p. 131-149.

ARAÚJO, K. M.; LETA, J. Os hospitais universitários federais e suas missões institucionais no passado e no presente. História, Ciências, Saúde. Rio de Janeiro, v. 201, n. 24, p. 1261-1281, out./dez., 2014. Disponível em: . Acesso em: 1 ago. 2018.

BARROS, L. P.; KASTRUP, V. Cartografar é acompanhar processos. In: PASSOS, E.; KASTRUP, V.; ESCÓSSIA, L. (Orgs.). Pistas do método da cartografia: pesquisa-intervenção e produção de subjetividade. Porto Alegre: Sulina, 2012. p. 52-75.

BITTENCOURT, R. J. A superlotação dos serviços de emergência hospitalar como evidência de baixo desempenho organizacional. Tese (Doutorado). Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca. Rio de Janeiro, 2010. Disponível em: Acesso em: 1 ago. 2018.

BRASIL. Ministério da Saúde. Reforma do sistema da atenção hospitalar brasileira. Brasília, DF, 2004a.

BRASIL. Ministério da Saúde. HumanizaSUS: Política Nacional de Humanização: a humanização como eixo norteador das práticas de atenção e gestão em todas as instâncias do SUS. Brasília, DF, 2004b. Disponível em: Acesso em: 1 ago. 2018.

BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Atenção às Urgências. Brasília, DF, 2003. Disponível em: Acesso em: 1 ago. 2018.

BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 2.048, de 05 de novembro de 2002. Aprova o Regulamento Técnico dos Sistemas Estaduais de Urgência e Emergência. Brasília, DF, 2002. Disponível em: Acesso em: 1 ago. 2018.

BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 3.125, de 7 de dezembro de 2006. Institui o Programa de Qualificação da Atenção Hospitalar de Urgência no Sistema Único de Saúde - Programa QualiSUS e define competências. Brasília, DF, 2006. Disponível em: Acesso em: 1 ago. 2018.

BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 320, de 4 de fevereiro de 1994. Cria o código de Atendimento Específico Urgência/Emergência. Brasília, DF, 1994. Disponível em: . Acesso em: 1 ago. 2018.

BOTTI, S. H. O.; REGO, S. T. A. Docente-clínico: o complexo papel do preceptor na residência médica. Physis (Rio J.), Rio de Janeiro, v. 21, n. 1, p. 65-85, 2011. Disponível em: < https://www.scielosp.org/article/ssm/content/raw/?resource_ssm_path=/media/assets/physis/v21n1/v21n1a04.pdf > Acesso em: 1 ago. 2018.

CASAROTTO M. et al. “I went to the nearest health clinic...”: free demand of the emergency service of a university hospital. Revista online de pesquisa: cuidado é fundamental, Rio de Janeiro, v. 4, n. 3, p. 2712-2721, jul./set. 2012. Disponível em: Acesso em: 1 ago. 2018.

CECÍLIO, L. C. O. Modelos tecno-assistenciais em saúde: da pirâmide ao círculo, uma possibilidade a ser explorada. Caderno de Saúde Pública. Rio de Janeiro, v. 13, n. 3, p. 469-478, jul-set. 1997. Disponível em:< http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-311X1997000300022&script=sci_abstract&tlng=pt> Acesso em: 1 ago. 2018.

DESLANDES, S. F. Frágeis Deuses: profissionais da emergência entre os danos da violência e a recriação da vida. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2002.

FEUERWERKER. L. C. M. Micropolítica e saúde: produção do cuidado, gestão e formação. Porto Alegre: Rede UNIDA, 2014. Disponível em: < http://www.saude.sp.gov.br/resources/humanizacao/biblioteca/dissertacoes-e-teses/micropolitica_e_saude_laura_camargo.pdf> Acesso em: 1 ago. 2018.

FORTES, P. A. C. Ética, direitos dos usuários e políticas de humanização da atenção à saúde. Saúde e Sociedade, São Paulo, v. 13, n.3, p.30-35, set./dez. 2004.

FOUCAULT, M. Microfísica do poder. 11. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1993.

FROSSARD, A. G. S.; SILVA, E. C. S. Experiência da residência multiprofissional em serviço social e cuidados paliativos oncológicos. Revista katálysis, Florianópolis, v. 19, n. 2, p.281-288, 2016. Disponível em: . Acesso em: 0 ago. 2018.

GUEDES, M. V. C.; HENRIQUES, A. C. P. T.; LIMA, M. M. N. Acolhimento em um serviço de emergência: percepção dos usuários. Revista Brasileira de Enfermagem. v. 66, n. 1, p. 31-37. Disponível em: Acesso em: 1 ago. 2018.

HOSPITAL DE CLÍNICAS DE PORTO ALEGRE (HCPA). Gestão do Serviço de Emergência (material de uso interno), 2015.

HOSPITAL DE CLÍNICAS DE PORTO ALEGRE (HCPA). Emergência. Disponível em: Acesso em: 1 ago. 2018.

ISMAEL, S. M. C. Temas de prevenção, ensino e pesquisa que permeiam o contexto hospitalar. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2005.

LOURENÇÃO, L. G.; MOSCARDINI, A. C.; SOLER, Z. A. S. G. Saúde e qualidade de vida de médicos residentes. Rev. Assoc. Med. Bras., v. 56, n.1, p.81-91, 2010. Disponível em: Acesso em: 1 ago. 2018.

MACHADO, S. P.; KUCHENBECKER, R. Desafios e perspectivas futuras dos hospitais universitários no Brasil. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 12, n. 4, p. 871-877, 2007. Disponível em: Acesso em: 1 ago. 2018.

MERHY E. E. Saúde: A cartografia do trabalho vivo. 3. ed. São Paulo: Editora Hucitec, 2002.

MERHY E. E. Em busca do tempo perdido: micropolítica do trabalho vivo em saúde. In: MERHY, E. E.; ONOCKO, R. (Org.). Agir em saúde: um desafio para o público. São Paulo: Hucitec, 1997. p. 71-112.

MERHY, E. E.; FEUERWERKER, L.C.M. Novo olhar sobre as tecnologias de saúde: uma necessidade contemporânea. In: MANDARINO, A.C.S.; GOMBERG, E. (Orgs.). Leituras de novas tecnologias e saúde. São Cristóvão: Editora UFS, 2009. p.29-74. Disponível em: < http://eps.otics.org/material/entrada-outras-ofertas/artigos/novo-olhar-sobre-as-tecnologias-de-saude-uma-necessidade-contemporanea/view>Acesso em: 1 ago. 2018.

MORAES JÚNIOR, J. A. Para uma análise cartográfica da subjetividade na escola a partir de Nietzsche, Deleuze e Guattari. SABERES, Natal, v. 1, n. 6, fev. 2011. Disponível em: Acesso em: 1 ago. 2018.

MOSSER, G.; BEGUN, W. Compreendendo o trabalho em equipe na saúde. Porto Alegre: AMGH, 2015.

NETO, F. C. B., et al. Atenção Hospitalar: evolução histórica e tendências. In: GIOVANELLA, L. (Org.). Políticas e Sistemas de Saúde no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2012. p. 577- 608.

NOGUEIRA, D. L. et al. Avaliação dos Hospitais de Ensino no Brasil: uma Revisão Sistemática. Rev. Bras. Edu. Med., Rio de Janeiro, v. 39, n. 1, p. 151-158, 2015. Disponível em: . Acesso em: 1 ago. 2018.

PASSOS, E.; BARROS, R. B. A cartografia como método de pesquisa-intervenção. In: PASSOS, E.; KASTRUP, V.; ESCÓSSIA, L. (Orgs.). Pistas do método da cartografia: Pesquisa-intervenção e produção de subjetividade. Porto Alegre: Sulina, 2012. p. 17-31.

PAULON, S. M. et al. O foco míope: apontamentos sobre o cuidado à crise em saúde mental em emergências de hospitais gerais. Polis e Psique, Porto Alegre, v. 2, Número Temático, 2012. Disponível em: . Acesso em: 1 ago. 2018.

Prefeitura Municipal de Porto Alegre (PMPA). Atendimento de emergência terá novo fluxo na rede de saúde. Disponível em: . Acesso em: 1 ago. 2018.

POZZANA, L. A formação do cartógrafo é o mundo: corporificação e afetabilidade. In: PASSOS, E.; KASTRUP, V.; TEDESCO, S. (orgs.). Pistas do método da cartografia: a experiência da pesquisa e o plano comum – volume 2. Porto Alegre: Sulina, 2014. p. 42-65.

ROMANO, W. B. Princípios para a prática da psicologia clínica em hospitais. Casa do Psicólogo. São Paulo, 1999.

ROSA, S. D.; LOPES, R. E. Tecendo os fios entre educação e saúde: avaliação do Programa da Residência Multiprofissional em Saúde. Avaliação, São Paulo, v. 21, n. 2, p. 637-656, jul. 2016. Disponível em: . Acesso em: 1 ago. 2018.

SÁ, M. C.; CARRETEIRO, T. C.; FERNANDES, M. I. A. Limites do cuidado: representações e processos inconscientes sobre a população na porta de entrada de um hospital de emergência. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 24, n. 6, p.1334-1343, jun. 2008. Disponível em: . Acesso em: 1 ago. 2018.

SANTOS, D. S. O cotidiano de um Serviço de Urgência e Emergência nos discursos de usuários e trabalhadores. Tese (Doutorado em Enfermagem). Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, 2015. Disponível em:. Acesso em: 1 ago. 2018.

SANTOS, C. A.; SANTO, S. E. E. Análise das Causas e Consequências da Superlotação dos Serviços de Emergências Hospitalares: Uma Revisão Bibliográfica. Revista Saúde e Desenvolvimento, Curitiba, v.5 n.3, jan./jun. 2014. Disponível em: . Acesso em: 1 ago. 2018.

SARRIERA, J. C.; SAFORCADA, E. (org.). Enfoques teórico metodológicos de la Psicología Comunitária. Buenos Aires: Paidós, 2008.

SILVA, L. G.; MATSUDA, L. M. WAIDMAN, M. A. P. A estrutura de um serviço de urgência público, na ótica dos trabalhadores: perspectivas da qualidade. Texto Contexto Enferm, Florianópolis, v. 21, n. 2, p. 320-82, abr./jun. 2012. Disponível em: . Acesso em: 1 ago. 2018.

SOUZA, C. C. Análise da confiabilidade do Sistema de Triagem de Manchester para determinar o grau de prioridade de pacientes em serviços de urgência. 2016. 136 f. Tese (Doutorado em enfermagem) Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, 2016. Disponível em: . Acesso em: 1 ago. 2018.

SPONHOLZ, T. C. H et al. Processo de trabalho na residência médica: a subordinação do ensino-aprendizagem à exploração da força de trabalho dos residentes. Trab. educ. saúde, Rio de Janeiro, v.14, s.1, p.67-87, 2016. Disponível em: . Acesso em: 1 ago. 2018.


Apontamentos

  • Não há apontamentos.


Licença Creative Commons
Este obra está licenciado com uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.