O agir profissional de equipes de saúde e a atenção a gestantes no Sistema Único de Saúde

Janice Castilhos Gomes, Ramona Fernanda Toassi Ceriotti, Cristine Maria Warmling

Resumo


O estudo propõe-se a analisar o agir em competência de equipes de saúde da

família na produção do cuidado de gestantes atendidas no Sistema Único de Saúde

(SUS) de uma região de saúde no estado do Rio Grande do Sul. Trata-se de um

estudo de caso do tipo único e integrado com múltiplas unidades de análise.

Utilizou-se abordagem metodológica predominantemente qualitativa. Os dados

foram produzidos por meio da realização de sete grupos focais em sete equipes de

saúde da família com saúde bucal de seis municípios da região analisada. Todas as

equipes do estudo passaram pela avaliação no primeiro ciclo do Programa de

Melhoria de Acesso e Qualidade (PMAQ) no ano de 2012. Foram ouvidos 22

trabalhadores da atenção básica ─ 7 médicos, 7 enfermeiras e 8 cirurgiões-

dentistas. O estudo valeu-se também dos dados secundários produzidos na

avaliação do PMAQ. A base referencial teórica de produção e análise dos dados

encontra-se fundamentada na ergologia, especialmente no agir em competência

descrito por Schwartz (2010). A condução do grupo focal ocorreu com a ajuda de

um instrumento de pesquisa baseado nos ingredientes do agir em competência na

produção do cuidado das equipes de saúde entrevistadas. Os dados produzidos

pelo estudo foram analisados com a ajuda do programa de análise qualitativa NVivo.

Os resultados encontrados demonstram que a convivência das equipes de saúde da

família com médicos especialistas de maneira não integrada conduzem a livre

demanda, ao atendimento médico-centrado, a priorização de exames e

procedimentos, afeta o uso dos protocolos e torna a estratégia de saúde da família

coadjuvante no cuidado. Verificou-se a presença de concepções de saúde e doença

com discurso prescritivo a respeito da individualidade e autonomia das mulheres.

Quanto a realidade observou-se que a alta rotatividade, precariedade de vínculos

empregatícios e sobrecarga de trabalho dificultam inovações e o trabalho em

equipe. Foram relatadas dificuldades na manutenção das reuniões de equipes e

insuficiência de mecanismos de planejamento e decisão no âmbito local. Conclui-se

que contradições encontradas entre dados quantitativos provenientes da avaliação

do PMAQ com resultados qualitativos produzidos pelos grupos focais, levam a

constatação da importância de realização de estudos que produzam a

complementaridade de perspectivas quantitativas e qualitativas.


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