Notícias

CHAMADA DE ARTIGOS - AÇÃO CULTURAL E AÇÃO ARTÍSTICA

 

A Revista Brasileira de Estudos da Presença [Brazilian Journal on Presence Studies], periódico eletrônico de acesso livre e revisão por pares, sem taxas de submissão ou publicação, receberá até 31 de julho de 2019 artigos inéditos dentro do escopo do tema AÇÃO CULTURAL E AÇÃO ARTÍSTICA.

 

Ação Cultural e Ação Artística são dois termos cuja distinção nem sempre é nítida.

 

O primeiro decorre de uma longa trajetória, cujas bases foram lançadas a partir de 1958 pelo Ministro da Cultura da França, André Malraux, mais tarde retomadas por Francis Jeanson à luz do ideário do movimento de 1968 naquele país. Na esteira desse percurso, as premissas dessa noção foram tratadas no contexto brasileiro nos anos 1990 por Teixeira Coelho. Antes disso, no entanto, em 1975, com a publicação por Paulo Freire de Ação Cultural para a liberdade e outros escritos (reeditada pela Paz e Terra em 2011), o termo se difunde no Brasil estreitamente vinculado ao exercício de uma compreensão crítica da sociedade.

 

Na contramão do consumo de objetos tidos como pertencentes à esfera da cultura, mas, ao contrário, focalizadas na organização de condições necessárias para que as pessoas e os grupos inventem seus próprios fins no universo cultural, essas ações costumam ter como ponto de partida o território no qual são conduzidas e a população que o habita. Assim, por exemplo, grupos e coletivos artísticos podem estabelecer fortes laços com movimentos sociais ou organizar saraus e festas comunitárias nos quais a poesia e a música criam laços de solidariedade, abrindo portas para a invenção de objetivos comuns e transformações no cotidiano. Ações em rede podem caracterizar esses grupos e coletivos preocupados em envolver escolas, centros culturais, bibliotecas, ONGs em sua atuação. Próxima das noções de ação formativa ou educativa desenvolvidas em equipamentos culturais como museus, centros culturais e entidades diversas, a ação cultural também é reconhecida como atividade pedagógica realizada fora da escola.

 

A noção de ação artística, por sua vez, possui origem mais difusa e abarca ampla variedade de práticas de caráter artístico dirigidas a todo e qualquer indivíduo que se disponha a experimentá-las, independentemente de requisitos prévios. Carentes de uma sistematização conceitual consistente, ou tidas genericamente como “manifestações artísticas”, tais ações nem sempre são identificadas pelos seus próprios proponentes por meio da terminologia que trazemos aqui. Ações artísticas sempre passam por uma prática, pelo confronto com as restrições da formalização de uma ideia, uma emoção, um sentido simbólico a serem compartilhados. É o que ocorre quando artistas propõem ações relacionais em espaços públicos, convocando espectadores passantes a interagirem ou mesmo a ativarem a obra. Algumas ações não apenas dependem do encontro com o espectador para acontecerem, mas prescindem da presença do artista, cuja função se desloca do ato de performar e para a organização de dispositivos inter-relacionais produtores de dramaturgia, por exemplo. Nesse sentido, além de colocar a experiência dos passantes em primeiro plano, convocando também seus corpos de maneira expressiva, tais ações podem resultar em narrativas, desenhos, fotografias e vídeos. Os espectadores assumem, desse modo, um lugar de coautoria na criação e não somente de fruição da obra. Recentemente, como se pode observar, ações artísticas vêm sendo associadas a experiências de contrapartidas sociais ou de experimentações contemporâneas relacionadas ao campo da performance, nas quais são propostas ações relacionais e de convívio, em contextos sociais e políticos distintos. Assim, proposições corriqueiras - como convocar pessoas para permanecer no espaço público, conversando ou explorando outros modos de usá-lo - ou proposições politicamente engajadas que visam contestar o poder público, com maior ou menor grau de desobediência civil, são exemplos possíveis de ações artísticas no campo performático.

 

Nas últimas décadas, em que as artes da cena vêm passando por intensas mutações, as noções de ação cultural e artística, como não poderia deixar de ser, têm se transformado à luz dos desafios da contemporaneidade, dando origem a operações não raro surpreendentes e desestabilizadoras.

 

Trata-se, portanto, de terrenos movediços, nos quais ambos os termos se sobrepõem, de acordo com o contexto político e social no qual se inscrevem. O que decorre da aproximação dessas duas concepções é que ambas associam as esferas da arte e da educação, permitindo uma mútua interferência entre processos artísticos e pedagógicos, às vezes de modo pontual, outras vezes ao longo de um processo cumulativo. Experiências do teatro de grupo no Brasil vêm envolvendo cidadãos não só como espectadores em potencial, mas como interlocutores, debatedores das questões propostas em seus processos de criação, o que as caracteriza como ações no âmbito cultural. Por vezes, os mesmos grupos vão mais longe, propondo parcerias de cunho artístico com esses cidadãos, convidando-os a se envolverem diretamente na composição da obra em gestação.

 

Nesse sentido, interessa destacar o quanto a fricção dessas duas noções colabora para a atualização de ambos os termos, assim como favorece a ampliação de possibilidades que envolvem a arte e a educação indistintamente.

 

Assim sendo, a fim de fomentar a problematização das relações entre Ação Cultural e Ação Artística, a seção temática em foco pretende oferecer uma oportunidade para tensionar essa zona a partir de diferentes perspectivas, mediante a reunião de artigos de autores e autoras nacionais e estrangeiros (as). Os interessados podem submeter ensaios teóricos, artigos provenientes de suas pesquisas no campo artístico ou pedagógico, sobre diferentes acepções de Ação Cultural e Ação Artística, seja relacionando as duas noções, para aproximá-las ou negá-las, seja escolhendo uma dessas modalidades como foco para a reflexão.

 

Os tópicos apresentados a seguir apontam abordagens possíveis para o tema, sem prejuízos de outras formulações:

 

-          Ação Cultural e suas variantes em diferentes contextos e acepções.

-          Aproximações entre Ação Cultural e Ação Artística.

-          O surgimento da Ação Artística como desdobramento da noção de Ação Cultural.

-          Ação Artística como exploração performativa das relações sociais.

-          Ações cultural e artística no âmbito das contrapartidas sociais.

-          Políticas públicas que promovem ações de caráter cultural e artístico.

-          O artista ou o grupo teatral como agente cultural.

-          A linha tênue entre a Ação Artística e a Ação Cultural: aproximações e distinções.

-          O papel da Ação Cultural no campo das políticas públicas.

-          Propostas de Ação Cultural e Ação Artística como ações formativas: quando as artes e a educação não se distinguem.

-          Implicações pedagógicas da Ação Cultural e da Ação Artística.

-          Ação Cultural e Ação Artística e os desafios contemporâneos no campo das artes.

-          A Ação Artística no campo da Arte da Performance, experimentações relacionais e conviviais.

-          Quando a Ação Artística se infiltra na criação de encenadores por meio da presença de não-atores em cena.

 

 

Assim, a Revista Brasileira de Estudos da Presença espera receber trabalhos resultantes de pesquisas vinculadas conceitualmente ao campo do teatro, da educação, da performance e de outras linguagens similares. Além disso, espera receber trabalhos de áreas imbricadas, fronteiriças e que dialoguem com os termos apresentados como ponto de partida para a discussão. As submissões devem estar de acordo com os padrões do periódico e devem ser postadas diretamente no sistema de submissão para seguir o processo geral de avaliação do periódico. Para submeter um artigo a esta chamada, é fundamental selecionar a seção correspondente (Ação Cultural e Ação Artística). Lembramos que o periódico não cobra taxas de submissão, nem de publicação e utiliza o sistema duplo-cego de revisão por pares. O texto pode ser enviado em português, espanhol, inglês ou francês e será publicado em duas línguas. Será solicitado aos autores que enviarem textos em português ou espanhol (e àqueles lusófonos) que enviem uma tradução em inglês. A revista providencia tradução para o português de artigos enviados em inglês ou francês, desde que os autores sejam nativos desses idiomas. Maiores informações podem ser encontradas em nosso website, www.seer.ufrgs.br/presenca; nossas diretrizes podem ser visualizadas em “Diretrizes para Autores”.

 
Publicado: 2019-05-27
 
1 a 1 de 1 itens