Heinrich Pleticha; Hans Peter Thiel (Hrsgn.) . Von Wort zu Wort. Schülerhandbuch Deutsch. Berlin: Cornelsen, 2005 (528 p.)

     

     

    Félix Bugueño Miranda

    recebido em 01/09/2010 e aceito em 11/09/2010


    De tempos em tempos, a lexicografia alemã oferece exemplos claros da sua condição “sui generis”. Nessa ocasião, a análise de Von Wort zu Wort (doravante WzW (2005)), permitirá comprovar essa afirmação. Primeiramente, o próprio título deixa em evidência que os seus redatores conceberam WzW (2005) com um objetivo que parece transcender o escopo de um dicionário. A auto-definição da obra como um “Schülerhandbuch” [manual do escolar] parece sugerir que se almeja oferecer um “vademecum” para as necessidades do estudante do ensino fundamental. Curiosamente, no “Front Matter”, lê-se que se trata de “um dicionário ortográfico e semasiológico” [ein Wörter- und Rechtschreibbuch], de uma “obra de referência para a aula de alemão” [ein Lexikon für den Deutschunterricht], assim como de uma “obra de referência sobre literatura” [ein Literaturlexikon]. Contém, ademais, um guia de regras ortográficas, um compêndio de gramática e um compêndio para auxiliar na produção textual. Naturalmente, para efeitos dessa resenha, o foco da análise será o “Wörter- und Rechtsschreibbuch”. 

    No que diz respeito à organização macroestrutural, WzW (2005) afirma possuir uma densidade macroestrutural de 35.000 signos-lema aproximadamente. Em relação à definição macroestrutural qualitativa, e seguindo a tendência majoritária da lexicografia alemã, WzW (2005) optou por uma solução de nicho léxico, isto é, a criação de sub-entradas (“run-on-entries”, na tradição metalexicográfica anglo-saxônica), como s.v. Meister, Protest e Sparbuch. Há também uma consequente apresentação de formas “type”  e “token”, nos casos em que coexistem duas formas, sendo uma a realização vernácula (empréstimo) de um estrangeirismo e a outra o “Fremdwort” propriamente tal. Exemplos disso são Boutique / Butike, Cousine / Kusine, Büffet / Bouffett, Buckett / Bouquett, Majonäse / Mayonnaise, Masurka / Mazurka. Esse sistema merece dois comentários. Em primeiro lugar, nota-se a tendência da língua alemã a adaptar os “Fremdwörter” aos padrões fonológico-fonéticos e ortográficos da própria língua, embora em Boutique e Cousine a forma preferencial continue a ser o estrangeirismo. Em segundo lugar, a forma type aparece destacada, já que é sob esse lema que o verbete apresenta o comentário semântico. No lugar da progressão alfabética que corresponde ao token (como, por exemplo, Bouquett, Mayonnaise), só se fornece um comentário de forma mínimo (divisão silábica integrada ao signo-lema) e uma remissão para a forma type. Para esses critérios de estabelecimento de formas type / token, foram encontradas, no entanto, duas exceções. Em primeiro lugar, o caso de Brunst, Brunft. Brunst é a forma type, mas em lugar de empregar o recurso das barras simples para marcar a forma preferencial seguida da secundária, o verbete assinala a condição de token de Brunft por meio do seguinte comentário de forma: “(auch Brunft)” (WzW (2005, s.v.)). Essa solução foge notoriamente ao padrão claramente identificável em WzW (2005). Em segundo lugar, encontrou-se um caso de type / token que não corresponde a um estrangeirismo, mas a uma forma vernácula: Mesner / Messner. S.v. Mesner, destaca-se, em um segmento de comentário de forma, que no alemão suiço a forma é Mesmer (“(schweiz. Mesmer)”). Esses dois casos levam a uma reflexão referente ao público-alvo de WzW (2005). Se todo segmento informativo de um dicionário é uma instrução para o usuário, então o emprego de um indicador estrutural diferente para marcar a forma token em Brunst não pode ser considerada senão como uma decisão lamentável do dicionário. No caso de Mesner / Messner, por outro lado, deve-se perguntar se o usuário escolar possuirá a capacidade de compreender que o fenômeno das variantes ortográficas também se aplica ao léxico vernáculo, visto que esse procedimento aparace empregado em WzW (2005) somente nos casos de palavras exógenas ao alemão, que contam também com uma forma adaptada aos padrões fonológico-fonéticos e ortográficos da língua.

    No que diz respeito aos tipos de signos-lema que compõem a nominata, e segundo uma tendência já clássica da lexicografia alemã, WzW (2005) arrola grande quantidade de siglas, tais como Bafög, BASIC, BUND, CAD, LAN, LSD, MdL, MEZ e PISA. Ainda no âmbito da seleção lemática, o dicionário lematiza inclusive unidades léxicas que só aparecem em combinações sintagmáticas, tais como “oho! Klein aber oho” (WzW (2005, s.v.)), ou “Pa|ro|li das franz: jemandem Paroli anbieten (Widerstand entgegensetzen)” (s.v.). Para o primeiro exemplo transcrito, pode-se constatar que nem sequer é oferecida uma paráfrase explanatória.

    Como último quesito da definição macroestrutural, salienta-se que WzW (2005) optou por uma consequente solução homonímica, como em Mark(1), Mark(2), Mark(3), Marsch(1), Marsch(2) e Mast(1), Mast(2). Curiosamente, não há nenhum tipo de indicador estrutural que assinale o fenômeno (os expoentes foram postos pelo resenhista para destacar os signos-lema). Segundo o exposto até aqui, os casos de polissemia, como s.v. Partie e Periode, aparecem tratados em um único bloco. No entanto, lematiza-se separadamente Panama(1), Panama(2). Esse é, inquestionavelmente, um caso de polissemia, de tal forma que não é possível compreender a solução homonímica oferecida. 

     No âmbito microestrutural, por outro lado, é que WzW (2005) apresenta o maior número de itens que merecem uma ponderação atenta. Considerando que o público-alvo do dicionário são estudantes do ensino fundamental, como já se salientou, espera-se que o programa constante de informações (pci) não apareça sobrecarregado, mas, pelo contrário, seja um programa simples. Por “programa simples” entende-se um programa que contenha um segmento informativo de comentário de forma e um segmento informativo de comentário semântico (por acepção, no caso de polissemia). Ao se analizar verbetes como oho!, já transcrito  nos parágrafos precedentes, ou Konfrontation (“~ die lat.: Gegenüberstellung verschiedenartiger Meinungen, Sachverhalte oder Personen; es kam zu einer Konfrontation (Auseinandersetzung) zwischen Polizei und Demonstranten; kon|fron|tie|ren sie sah sich mit ihrer Vergangenheit konfrontiert (ihr gegenübergestellt)” WzW (2005, s.v.)), no entanto, é possível constatar que o pci é bastante mais complexo e não necessariamente funcional, nem para o público-alvo almejado, nem para outros possíveis usuários. Em primeiro lugar, deve-se questionar qual o ganho heurístico de um usuário escolar ao encontrar lematizado um sintagma fixo como Klein, aber oho! (s.v. oho!), se não há sequer um mecanismo parafrástico que elucide a sua significação. Aliás, a análise de outros signos-lema que também aparecem na nominata somente porque fazem parte de sintagmas fixos, tais como Paroli e Pfiff, revela que, nesses casos, sim foi fornecido algum mecanismo explanatório.

    Mais preocupante, no entanto, é a situação heterogênea que apresentam muitos verbetes. Antes de iniciar a análise, é prudente fazer duas considerações prévias. Por um lado, está-se em presença de um dicionário de orientação semasiológica, o que leva a esperar que em cada verbete o consulente encontre pelo menos um segmento informativo de comentário semântico. Por outro lado, é verdade também que a grande maioria dos dicionários do alemão segue, em maior ou menor medida, o modelo do “Rechtschreibungswörterbuch”, de modo que é perfeitamente lícito esperar que alguns verbetes não apareçam desenvolvidos além do comentário de forma.

    No entanto, não é claro o critério pelo qual alguns verbetes somente contêm apenas comentário de forma, como é o caso de “ent|blö|ßen [só signo –lema]”, “Kan|ne die”, “Quai / Kai der /das”, “Map|pe die lat”, etc., que não excedem a divisão silábica e/ou a definição gramatical. Ainda no plano do comentário de forma, WzW (2005) oferece transcrição fonética para os estrangeirismos (Management, Parfum, Playback, Poncho, Laptop), algo que também é característico da lexicografia alemã. Para alguns estrangeirismos, oferece-se, ainda, a indicação de plural (Porto, Pudding).

    Avaliando WzW (2005) na sua condição de dicionário semasiológico, por outro lado, os resultados não são especialmente satisfatórios. O dicionário apresenta um total de quatro mecanismos explanatórios distintos, sem que se consiga entender em que casos, ou por quê razão, eles foram empregados. Não há nada que impeça o uso de diferentes técnicas de explanação, mas o seu emprego, de forma isolada ou combinada, deve obedecer a certos princípios (dificuldade de explanação do “definiendum”, aumento do poder elucidativo docomentário semântico, etc.). Em primeiro lugar, empregam-se paráfrases explanatórias. É o caso de Statik “(...) Lehre von den in ruhenden Körpern wirkenden Kräften” (s.v.) e Thymus “(...) innere Drüsse hinter dem Brustbein, die bei Menschen und Wirbeltiere nur während der Zeit des Wachsens tätig ist (…)” (s.v.). Em segundo lugar, e à imitação dos dicionários bilíngues, há casos de uso de palavras ou frases curtas que parecem cumprir o papel de distinguidores semânticos, como em Lacher “(...) er hat die Lacher auf seiner Seite (er kann die Anwesenden für sich einnehmen)” (s.v. lächeln), Probe “(...) jemandem auf die Probe stellen (prüfen, testen), jemanden auf Probe (versuchsweise) anstellen (...)”(s.v.) e Version “(...) die ursprüngliche Version (Fassung) des Romans, er erzählte seine Version (Darlegung) des Unfalls, die verbesserte Version des Autos (das verbesserte Modell)” (s.v.). Em terceiro lugar, emprega-se o recurso da sinonímia em Hacke (...) 1. Werkzeug, 2. Ferse (...)” (s.v. Hackbeil), Idiot “(...) Dummkopf, Schwachsinniger (...)” (s.v.), Krätze “(...) 1. Hautausschlag, 2. Rückentragekorb (....)” (s.v.) e Weihe “(...) 1. Segen, Heilung, Würde (...), 2. Greifvogel (...)” (s.v.). Finalmente, há casos em que o mecanismo empregado é a exemplificação, como s.v. entgleisen “der Zug entgleiste in der Kurve”, s.v. enthüllen “der Bericht enthüllte die ganze Wahrheit”, s.v. Stil “(...) Rosen mit langem Still (...)” e s.v. Tusch (...) die Kapelle spielt einen Tusch”. A leitura de um (ou vários) verbete(s) de qualquer dicionário deve levar o consulente a ganhar uma heurística em relação ao tipo e à função que cada segmento informativo da microestrutura desempenha. A razão de ser do pci é justamente oferecer um conjunto organizado de dados que, por um lado, constitua uma aferição fiel de um dado fato de língua em um dado dicionário (uma informação discreta e discriminante, na nossa terminologia) e, por outro, um “roteiro” para o usuário. A multiplicidade de mecanismos explanatórios usados, aparentemente, de forma aleatória em WzW (2005) não constitui, lamentavelmente, uma decisão acertada, sobretudo, ao se considerar que o consulente provável do dicionário é um aluno do ensino básico.

    WzW (2005) faz uso do “Middle matter”, que está reservado, segundo o já comentado na introdução dessa resenha, a biografias de autores de língua alemã (F. Dürrenmatt, J.W. von Goethe, Th. Mann, por exemplo) e a conceitos básicos de literatura (Expressionismus, Fabel, Gedicht, Impressionismus, Sketch, etc.). O “Back matter”, por outro lado, contém um manual de ortografia, uma breve gramática do alemão e um índice de abreviaturas. As explicações são simples e claras.

    Em síntese, é evidente o esforço dos redatores de WzW (2005) por conceber um “vademecum” para o aluno alemão do ensino fundamental. A iniciativa “per se” já constitui um mérito. No entanto, e no que diz respeito exclusivamente ao inventário léxico arrolado, WzW (2005) não é um dicionário completamente satisfatório. O principal objetivo de um dicionário de orientação semasiológica é oferecer informações referentes à significação das palavras, e esse objetivo WzW (2005) só cumpre parcialmente.

     

    Félix Bugueño Miranda
    Instituto de Letras / UFRGS, Av. Bento Gonçalves 9500; bairro Agronomia; 91501-970 Porto Alegre (RS) / Brasil. Tel: 00-55-51-33086695; E-mail: felixv@uol.com.br